sexta-feira, julho 23, 2004

Optimismo? Pessimismo?

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

Desde há algumas semanas – mais propriamente desde que foi conhecido quem seria o treinador para a próxima época futebolística – que se vem discutindo nos blogs se estamos optimistas ou pessimistas para a próxima época. Ou antes: alguns afirmam “estou confiante” ou “estou optimista” e, quando outros denotam algumas insatisfações, dizem que eles são “pessimistas”.

É indubitável que há temperamentos mais optimistas e outros mais pessimistas – e, às vezes, até os alternamos em diferentes fases da vida. Penso que o realismo é melhor do que o optimismo ou o pessimismo, pois estas duas são apenas perspectivas subjectivas, respeitáveis, mas que não têm mais valor que esse; entretanto, neste caso, penso sobretudo que os “optimistas” e os “pessimistas” (admitamos estes termos) estão a pensar em coisas diferentes. Em consequência, falam também de coisas diferentes e, por isso, não se entendem – embora, nestes espaços azuis, prevaleça quase sempre a cordialidade e o respeito activo (digo “respeito activo” porque, para mim, não dar cavaco, não é respeito), que são um verdadeiro exemplo.

Na verdade, uns estaremos a falar da recém-iniciada época futebolística (1); outros, dos horizontes futebolísticos para os próximos anos (2); outros, do futuro próximo do clube em diferentes modalidades, i.e., não só o futebol; outros ainda, do futuro global do clube, a médio prazo, embora dependendo do curto prazo (4).

É nesta última perspectiva que geralmente falo, mesmo quando vou buscar coisas ao passado. Ambas são maneiras de ver fora do imediato, seja para trás ou para frente. São maneiras de estar e de ver as coisas, e estas são as minhas mais frequentes. Mas, por não serem as únicas, vou falar um pouco das outras.

1) Próxima época futebolística. Se avaliar em função dos objectivos dos responsáveis, ou seja, ficar nos primeiros 8-10, quer dizer, ficar a meio da tabela sem aflições, estou moderadamente “optimista”. Não temos um grande plantel mas temos o suficiente para ficar nesses lugares. O que aconteceu o ano passado tem muito a ver com uma série impressionante de asneiras. O plantel, em si, tinha qualidade para o meio da tabela (grosso modo). Acho o deste ano com um valor mais ou menos equivalente. E acho que não se farão as mesmas asneiras de gestão. O treinador parece bom, fiquei contente com a sua contratação. No entanto, depois de tudo o que já se viu, nomeadamente no Belenenses, com treinadores considerados competentes, ambiciosos, etc, não alinho em entusiasmos excessivos. Em princípio, estando no Belenenses, é o melhor treinador do mundo. Deve ser apoiado assim, enquanto não houver razões para ser de outra forma. Mas, repito, demasiada dependência de um treinador não é bom.

Agora, se virmos a próxima época doutra forma, eu estou triste ou “pessimista”. Dizer que o objectivo é ficar em 9º ou 10º não me motiva nada. Significa continuar a andar para trás. A perder terreno. Cada vez menos os jogadores ambiciosos nos podem olhar como um destino apetecível. Nem infundimos respeito a outras equipas. Se se perguntar ao adepto comum, não belenense, quais as melhores equipas, ele falará do Porto, do Benfica, do Sporting, do Boavista, do Marítimo, do Guimarães, do Braga, do Nacional... e nós? Fracos objectivos para o 4º clube português! É claro que no futebol há surpresas e podemos afinal ir mais longe do que os tais objectivos apontados. Claro que sim! Mas, pela mesma razão, também podemos ficar aquém e acontecer mais ou menos o mesmo que o ano passado. Aí, que se pronunciem os optimistas e os pessimistas. Por nós, falamos só do previsível dentro de um plano de normalidade. E o previsível, é realmente o meio da tabela. (Ainda há outra coisa que me entristece mas já se sabe e não vou repetir...).

2) Se os objectivos apontados para esta época não nos entusiasmam, não serão eles uma proposta realista, uma espécie de época de transição (como escrevi há tempos) que permita preparar outros voos? Pode ser; oxalá que sim. Mas, como já muitas vezes se disse algo de semelhante no passado e deu em nada, como apesar de alguns indícios positivos (a ideia de uma prospecção eficaz, por exemplo) ainda estão indefinidos e julgo que ainda não passaram a actos, como a política de empréstimos e até os contratos de um ano (além de uma excessiva dependência face à visão de um treinador só com um ano de contrato... e que até pode sair por “cima”) não são indícios muito animadores, mantenho-me expectante. Só duas observações: os protocolos para empréstimos de que falou o Engº Barros Rodrigues vão ser com clubes portugueses (para mim, péssimo!) ou com clubes estrangeiros, v.g., espanhóis, brasileiros e até argentinos (o que acharia muito bem)? E a propósito de Argentina: a rede de prospecção, além de Portugal e Brasil, não se pode estender, por exemplo, à Argentina, de onde o Belenenses recebeu alguns dos seus melhores jogadores, e onde temos amigos? Basta pensar em Di Pace. Claro que não preconizo que, na sua idade, o Di Pace vá andar a correr de um lado para o outro para nos referenciar jogadores. Mas certamente nos pode indicar quem o faça; e, com o seu olho de enorme jogador que foi, facilmente identificará um ou outro reforço que seja válido, mesmo vendo um ou outro jogo ocasionalmente.

3) Noutras modalidades além do futebol, estou optimista. O basquetebol pode fazer tão bem ou até melhor que o ano passado. Se não fizer, não é por falta de esforço para tal mas apenas por quaisquer contingências infelizes e imprevisíveis. Podemos até sonhar com um campeonato, uma taça, ou uma boa participação europeia. O Andebol apresentou uma planificação com deve ser. As modalidades aquáticas, especialmente a Natação, prosperam e têm um futuro altamente promissor. O Futsal pode subir outra vez. Saúda-se o começo do Voleibol Feminino (sem malícia ou segundos sentidos). Não é por acaso que é nestas modalidades, onde o dinheiro ainda não manda tanto, e onde se aproveita melhor o património humano de competências de que dispõe Belenenses, que as coisas são mais risonhas. Algo que dá para pensar... De qualquer modo, apesar de ser defensor de outras modalidades, temos que reconhecer que o Futebol é o que mais define o estado do clube.

4º) E o futuro global do clube? Haveria tanto para dizer... que vou dizer muito pouco. Não me quero alargar.

Em síntese, estou moderadamente apreensivo. Reconheço e sou grato ao esforço continuado para resistirmos e sobrevivermos, em padrões de dignidade; às melhorias notáveis no domínio das instalações; a um reequilíbrio financeiro. Mas, apesar disto, continuamos a ficar para trás. Continuamos a ver uma ambição limitada. Continuamos a ver que não nos situamos na realidade destes tempos, com estratégias de crescimento em termos de adeptos e de aproveitamento de meios de CS.

E... Por causa da construção do Restelo (e do azar daquele campeonato em 54/55), perdemos um pouco o comboio da profissionalização (a partir de meados da década de 50); por causa das dívidas e encargos por causa do Restelo, perdemos o comboio de brilhar em competições europeias (anos 60 e começo dos 70). Perdemos o comboio do tempo da grande projecção do Futebol nos jornais e na televisão (anos 90). Em breve virão campeonatos europeus. Com várias divisões e, depois, algo de semelhante aos nossos actuais distritais, que serão os campeonatos só nacionais. Há 40 anos atrás, aspiraríamos à 1ª Divisão europeia; há 15 anos atrás, à 2ª Divisão. Agora, corremos o risco dos “distritais” (i.e., nacionais). Temos uma década, ou talvez menos, para dar o salto...ou não. Se o não dermos, corremos, sim, o risco da Atleticização. Pode parecer uma loucura, um pessimismo detestável, mas olhem que há mais quem veja este risco. E com mais conhecimento de causa! Mas não sejamos derrotistas e pensemos em soluções!

Estes sim, são os grandes problemas a pensar. Acho que nos blogs já várias pessoas deram contributos válidos. E grátis!

(Nota: este artigo foi escrito antes do jogo em Santiago do Cacém).

quarta-feira, julho 21, 2004

Belenenses - 4 - 2 - Olhanense

Equipa:
Marco Aurélio ; Sousa, Pélé, Rolando, Amaral ; Tuck, Marco Paulo, José Pedro e Mauro; Eliseu e Ceará. Jogaram ainda: Pedro Alves, Cristiano, Mangiarrati, Sandro, Andersson, Ruben Amorim, Antchouet, Rodolfo Lima e Brasília

Marcha do marcador:
25' - Eliseu - 1-0
37' - Amaral - 2-0
47' - Brasília - 3-0
56' - Olhanense - 3-1
57' - Olhanense - 3-2
67' - Rodolfo Lima - 4-2

O jogo:

Na bela cidade de Santiago do Cacém, mais concretamente no Estádio Municipal, teve esta tarde lugar o primeiro desafio de preparação do Belenenses para a época 2004/05. A organização do jogo ficou a cargo da Filial do Belenenses Grupo Desportivo S. Francisco da Serra, presidida por Paulo Jesus. Antes da partida, vários frequentadores do Blog reuniram-se no "Kafé C@fé", mesmo em frente da entrada do Estádio, trocando impressões sobre o plantel e perspectivas para a temporada que se avizinha.

Pelas 18:00, teve início a partida. O Belenenses entrou em campo num claro 4-4-2, com a surpresa de Amaral surgir na esquerda da defesa. De resto, dupla de centrais com Pélé e Rolando (que estiveram seguros) e Sousa na direita. No meio-campo, Tuck mais atrás, Marco Paulo a médio direito, Mauro do lado esquerdo e José Pedro numa posição livre, de apoio ao ataque. Na frente, Eliseu e Ceará.

O jogo começou muito morno, mas com algum ascendente do Olhanense, apesar da defensiva azul revelar acerto e resolver com alguma facilidade os problemas. Na frente, Ceará esteve lutador e Eliseu colocou a cabeça em água à defesa algarvia. Aos 20 minutos, Sousa lesiona-se sozinho num lance que resultou nalgum perigo para a nossa baliza. Já com Sousa fora de campo, mas sem ter sido ainda substituído, Ceará tem um óptimo trabalho a meio-campo a livrar-se de 3 adversários, endossa a bola para a frente e Eliseu desmarca-se. Contorna o guarda-redes e encosta para o fundo da baliza.

De seguida entrou Cristiano, e Amaral foi para o lado direito da defesa. Passados alguns minutos, e já com o jogo equilibrado, excelente passe de Tuck para uma boa desmarcação de Amaral, que com um chapéu perfeitamente executado parecia ter resolvido o jogo.

Após o intervalo surge o 3-0, logo aos 46 minutos, naquela que foi a melhor jogada do desafio, com Brasília a surgir a concluír. Ao intervalo entrou praticamente uma equipa nova, tendo-se mantido somente em campo Amaral e José Pedro. Aos 56 minutos, num remate inofensivo do Olhanense, fraco e à figura, Pedro Alves foi infeliz e viu a bola entrar, passando-lhe por entre as pernas. Passado somente um minuto, o sangue dos adeptos azuis gelou como tem sido hábito num passado bem recente, com a nova dupla de centrais (Mangiarrati e Sandro) a desentender-se (uma constante ao longo da 2ª parte) e a surgir o remate dentro da área do jogador algarvio, num lance em que Pedro Alves pouco podia fazer.

Aos 67 minutos surge o golo da tranquilidade, da autoria de Rofolfo Lima, num contra-ataque concluído à segunda tentativa. Daí até ao final nota de destaque para 2 boas intervenções de Pedro Alves, redimindo-se do erro inicial.

No final da partida, ambas as equipas receberam um troféu das mãos da Vereadora da Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Santiago do Cacém. Também a equipa de arbitragem foi agraciada com ofertas.

Em suma, o Belenenses esteve relativamente bem, muito pressionante, e com Carvalhal muito interventivo (aliás, soltando algumas gargalhadas da bancada, nomeadamente quando se dirigiu ao árbitro avisando-o que a partida não era da Liga dos Campeões, após um repreensão mais intempestiva a um jogador azul).

Análise individual dos jogadores do Belenenses:
 
Marco Aurélio - Seguro, como de costume. Está para "lavar e durar".

Sousa - Apenas 20 minutos em campo, suficientes para um remate e algumas dificuldades defensivas. A lesão não parece grave.

Pélé - Boa exibição, a transmitir segurança ao inexperiente Rolando

Rolando - Parece ter grande futuro, muito bem defensivamente quer a central, quer a lateral-direito (reentrou na 2ª parte). Revelou alguma dificuldade no passe.

Amaral - Jogou quer a lateral-direito, quer a lateral-esquerdo, e esteve muito bem em ambas as posições. É claramente reforço.

Tuck - O já conhecido espírito combativo e visão de jogo.

Marco Paulo - Relativamente apagado, ainda teve alguns lances onde mostrou clarividência para orgranizar o meio-campo

Mauro - Encostado ao lado esquerdo foi muito batalhador e empurrou a equipa para a frente, apesar de por vezes com pouco nexo. Na 2ª parte reentrou para lateral-direito e deu bastante luta

José Pedro - Encheu as medidas aos adeptos presentes. Forte fisicamente, boa técnica, boa visão de jogo, parece ser um jogador de classe e a ter em atenção por Neca.

Eliseu - Muito activo no ataque, inaugurou o marcador e teve outra boa hipótese salva in extremis pelo guarda-redes algarvio.

Ceará - Esteve muito bem nas tabelas com colegas que apareciam de trás, casos de Eliseu ou Mauro. Exibição positiva.

Pedro Alves - Pena ter sofrido o 1º golo daquela forma, pois de resto esteve seguro e fez mesmo uma grande defesa na sequência de um livre directo.

Cristiano - Entrou cedo e esteve "certinho", destaque especial para as boas combinações com os colegas de flanco. 

Mangiarrati - Grandes dificuldades de entendimento com Sandro, permitindo veleidades aos algarvios. Esteve bem no capítulo do passe longo.

Sandro - Em termos individuais pareceu seguro, mas teve falhas de marcação a repartir com Mangiarrati.

Andersson - Esteve muito lutador a meio-campo (por vezes exagerou) e ajudou a pautar jogo.

Brasília - Um início em cheio, com o golo e uma boa jogada do lado esquerdo, mas eclipsou-se.

Rúben Amorim - É um óptimo jogador que merece oportunidades. O que se disse de José Pedro aplica-se ao jovem azul.

Antchouet - Esteve bastante infeliz, perdendo um golo isolado logo na primeira jogada da 2ª parte. Noutros lances em que se poderia isolar, complicou muito.

Rodolfo Lima - Com aquela sua fraca estatura, ganhou inúmeras bolas quer pelo chão, quer pelo ar, no meio-campo contrário. Marcou um golo em que fugiu bem à defesa contrária, na recarga a remate dele mesmo.



O 11 inicial




Entrega da Taça a Andersson




O organizador, Paulo Jesus, cumprimenta Carlos Carvalhal

Lourenço em Atenas



O avançado azul Lourenço foi esta tarde oficialmente convocado para a selecção olímpica de futebol, que disputará de 11 a 28 de Agosto a medalha de Ouro naquela que é a maior competição desportiva do Mundo.

Recorde-se que na primeira fase, a selecção nacional enfrentará as selecções do Iraque, Marrocos e Costa Rica.

Ao Lourenço, bem como a todos os futebolistas convocados, desejamos as melhores felicidades.

A Década de 80 (Cont.) - Parte IV – E Voltam as Desilusões... - Secção I – O Baixar das Bandeiras


Constato que tenho feito textos demasiado grandes, mesmo omitindo muitas coisas que me ocorrem. Simultaneamente, vejo que não é possível acabar esta série de artigos, nem sequer fazer as reflexões da década de 80, antes de começarem os jogos da nova época futebolística (no dia em que sairá este artigo, temos o 1º jogo, em Santiago do Cacém). Deste modo, resolvi resistir à tentação de dizer demasiadas coisas em cada artigo e, para poupar espaço, farei uma apresentação mais por tópicos.
 
A seguir à vitória na Taça, além da imensa alegria, perguntávamo-nos o que viria a seguir: um tempo novo de ambição e de conquistas ou uma recaída na mediania, no conformismo. As respostas chegariam muito em breve. E seriam ainda piores do que aquilo que receávamos!
 
Da prometida forma esquemática, deixamos alguns pontos que, naquele momento, faziam parte da equação das nossas interrogações:
 
- Tinha sido uma vitória extremamente meritória, não só pela final em si (triunfo sobre o Benfica, vencedor do Campeonato) mas, também, por toda a carreira, designadamente a eliminação do F.C.Porto e do Sporting;
- Era a primeira vitória, no espaço de uma década, que escapara ao trio dos nossos antigos rivais Benfica, Sporting, Porto. Parecia o Belenenses a reassumir-se...
- Nos últimos 3/4 anos, tendo em conta as diversas competições, tínhamo-nos superiorizado ao Boavista, de certo modo ao Vitória de Guimarães, e claro aos restantes clubes, exceptuando o Porto e o Benfica;
- E o Sporting? O Sporting vivia talvez a sua maior crise de sempre. Estava a meio do seu jejum de títulos, desde 1982; a situação financeira, sobretudo depois da fase Jorge Gonçalves, então a chegar ao fim, parecia ser catastrófica; no últimos anos, ou tínhamos ficado à frente deles no Campeonato (87/88) ou, em termos pontuais, bastante perto (embora sem anunciar grandes conquistas, como eles continuavam a fazer); mesmo em Alvalade, só perderamos 1 vez nos últimos 4 anos; ganháramos a Taça, o que eles não faziam desde 82; e já se ouvia, aqui e ali, dizer que agora, em Lisboa, era o Benfica e o Belenenses, para rivalizar com o Porto. Em resumo, tínhamos a oportunidade de sair da posição de conformado 3º clube de Lisboa, incapaz de competir com SLB e SCP;
- Com 20.000 belenenses na final, apesar da lotação esgotada e da transmissão televisiva, havíamos demonstrado que ainda possuíamos uma grande capacidade de mobilização;
- Além do 3º lugar da época anterior, tínhamos tido algumas fases excelentes em anteriores campeonatos, embora alternando com fases de maior apagamento;
- Havíamos registado duas boas prestações europeias;
- O estádio tinha, enfim, beneficiado de algumas melhorias, com as cadeiras para todos os “cativos” e a iluminação nova e bastante boa (uma das 2 melhores do país);
- Apesar de tudo, abrira-se mais um espaço para os sócios no Estádio, metade da bancada do lado Tejo;
- Havia obras que, finalmente, pareciam encaminhadas: piscinas, campo de treinos relvado...
 
Todavia, no outro lado da balança:
 
- Mesmo em tempos auspiciosos, uma parte dos adeptos continuava a evidenciar uma pequenez de objectivos confrangedora (“Competições europeias... para quê?”; “já não descemos...”; “6º lugar? Bem bom!”; “ficar outra vez em 3º? Estás mas é maluco!”; “perdemos? E depois? Querias ganhar sempre? Então, éramos campeões...”; “Na Luz ou contra o Porto é para perder”, etc.”);
- A afirmação de belenensismo por parte dos dirigentes era, por vezes, muito débil. Alguns pareciam nem conhecer a história do clube. Quando Pinto da Costa os acusou de serem do Benfica, quase nem reagiram...
- O clube, em termos de assistências, não só continuava bem distante do Benfica, do Sporting e do Porto (embora menos do que hoje), como não se conseguia superiorizar aos Vitórias (Guimarães e Setúbal) em jogos do campeonato ou de Taças Europeias, e desesperávamos com a falta de preocupação com esse facto;
- O aspecto das instalações ainda era desolador;
- Das camadas jovens, quase nada se aproveitava para a equipa de futebol;
- A imprensa continuava a ligar-nos muito pouco (embora muitíssimo mais que actualmente) e a atacar-nos capciosamente sempre que podia. Exemplo disso, foi o jornal Record do dia a seguir à nossa vitória na Taça: 2 linhas minúsculas na capa, sem nenhuma imagem; todo o destaque para uma entrevista com um jogador do Benfica; na 2º página, um editorial do Rui Cartaxana a dar-nos para trás; insinuações de que ganhámos por causa da arbitragem e da sorte (!!!), o que me pôs em estado de revolta quase colérica;
- A estas discriminações, os responsáveis não reagiam, nem nunca vi uma estratégia (nem preocupação com tal) para fazer reverberar as nossas vitórias, puxar pelo clube, torná-lo atractivo para os jovens, mostrá-lo como alternativa – novamente! Nem o passado sabíamos aproveitar... – aos três clubes que sabemos, dá-lo como exemplo de luta contra a adversidade, reunir élan e entusiasmo à sua volta, fazer aumentar as assistências, manter viva a projecção e a ambição do clube;
- Nas épocas de 87/88 e 88/89, o Benfica e o Sporting contrataram quantidades inacreditáveis de jogadores. Podiam fazer 3 equipas, já com os suplentes! Começou então a campanha, via jornais ao seu serviço e adeptos, para os pôr a rodar, emprestados noutros clubes. E o Belenenses era um dos principais alvos; e em alguns sectores azuis, essa ideia encontrava eco...
 
A resposta à nossa questão cedo se foi definindo, no pior dos sentidos.
 
Começou, de certa forma, com o facto de não haver nenhuma celebração preparada. Lembro-me de hesitarmos onde devíamos ir. O meu pai perguntava: “Vamos às Salésias?” (ou seja, para o Restelo. Só que ele quase sempre ainda dizia “Salésias”, onde provavelmente foi mais vezes que ao Restelo...). Resolvemos ir ver se havia algo na Praça Afonso de Albuquerque. Mas, apanhados no meio de bichas, chegámos tarde, pois a camioneta com a equipa já ali estivera. Percebo que, sendo duvidosa a vitória, não se tivesse organizado nada. E também não havia os meios de comunicação instantâneos que existem actualmente. O que não entendo é que, depois, nada se tivesse feito, deixando murchar o entusiasmo, deixando cair o feito no esquecimento em termos de imprensa, não aproveitando e fomentando o entusiasmo...
 
Continuou nas declarações de responsáveis do clube. Fazendo coro com os comentadores, todo o mérito foi posto em Marinho Peres! “Nós sempre acreditámos que Marinho Peres nos podia dar este triunfo...”. Ou seja, é como se todo o projecto, afinal, tivesse sido, só, Marinho Peres. É um erro recorrente: Meirim (uma catástrofe em resultados; mas falarei disso um dia), Artur Jorge (quase 40 jogadores e primeira descida...); José Romão (...), João Alves (...), Manuel José (...), Inácio (...). Sempre que se confiou demasiado num treinador deu mau resultado. É por isso que, embora esteja contente com a sua contratação, não acho bem toda esta ênfase em que o Carvalhal é que sabe, é que vai fazer e acontecer, é que diz que jogadores é que quer... Acho perigoso. Não é assim que se trabalha nos clubes de sucesso. Veja-se o Porto. Dir-se-á: mas com Marinho Peres não resultou? A minha resposta é: só enquanto ele esteve. Ele sabia levar as coisas e moralizar os jogadores. Mas sempre que ele saiu, foi o dilúvio...
 
Bom, e naquela altura havia a dúvida se Marinho Peres ia ficar (acho que foi o que se pediu na Praça de Albuquerque, quando o autocarro passou por lá: “Fica1 Fica! Fica”, gritou-se, segundo me disseram). Ainda hoje se diz que ele, então, se foi novamente embora por causa de problemas familiares no Brasil. Mas penso que isso foi um mito que se criou e que foi conveniente que se criasse. É verdade que ele falou em saudades. Mas eu lembro-me perfeitamente que, poucos dias depois da final, entrevistado no programa “Livre e Directo”, na Antena Um (6ª f à noite), quando perguntado se ficava ou não no Belenenses, depois de o próprio locutor dizer “Tem problemas a resolver no Brasil, não é?...”, Marinho Peres não esclareceu: “Sabe, o problema maior nem é tanto esse. Ganhámos a Taça, foi bonito, mas no Campeonato ficámos a 26 pontos do 1º. Então, vai depender de se eu tenho condições para no próximo ano andar cá mais em cima no campeonato. Aí a directoria é que vai dizer...”. E passadas semanas, foi-se embora... No ano a seguir estava no Sporting. E já não havia o problema das saudades... Acho que isto diz tudo, até porque penso que ele gostava e gosta realmente do Belenenses!
 
Depois, toda a postura do clube, paradoxalmente, era de mostrar menos ambição do que antes da Taça. Era como se toda a ambição se tivesse consumado nessa conquista. Lembro-me que uma ou duas semanas depois, no Restelo, havia um silêncio e um deserto que não havia em nenhum defeso anterior; era como se o clube tivesse adormecido. Feliz mas exausto e adormecido – é isso. Havia muito poucos sócios por ali, e falando doutras coisas que não o clube. Nada de um ambiente festivo, nada de sonhar com outras conquistas, nada de projectar o futuro... Logo a seguir, a minha vida complicou-se e deixei de poder ir ao Restelo com a frequência dos anos anteriores. Mas ainda hoje me espanto com aquela dormência – de dirigentes e adeptos. Uma sensação de cansaço... a que ainda haveremos de voltar, noutro artigo.
 
Tristemente, não só não houve nada que, festivamente, assinalasse a vitória da Taça no fim daquela época (oportunidade perdida...), como o jogo de apresentação na época seguinte foi contra...o Estrela da Amadora (sem desprimor)! Meia dúzia de gatos, um jogo paupérrimo (1-1), que deprimente começo!
 
E quanto ao plantel? Antes ainda do fim da época, sabia-se que iam sair Mladenov e Jorge Martins. Acho que o processo não foi bem conduzido, porque não se acautelou a noção de que esses jogadores, em especial Mladenov, eram referências do clube, e porque o clube para onde foram, o Vitória de Setúbal, mais propriamente o seu Presidente de então, nos chamaram “clube de bairro”, “sem ambição” e não tiveram a devida resposta. Mas é verdade que o Mladenov já começava a decair; e, aparentemente, tinham-se assegurado contratações à altura: o Guarda-Redes internacional búlgaro Mihailov, o também internacional búlgaro Sadkov (que se esperava viesse a ser o já então desejado nº 10 de classe) e o avançado Jorge Silva que, no Marítimo, fora o 2º ou 3º melhor marcador do Campeonato (infelizmente, os dois últimos pouco fizeram no clube). Acrescia uma opção para Defesa Esquerdo, Grosso, vindo do Fafe (no ano anterior, em caso de impedimento do Zé Mário, tinha que se adaptar o Adão). Durante o defeso, porém, o central Sobrinho saiu para o Racing de Paris e, para compensar, pedimos Edmundo emprestado ao Benfica. Um grande golpe para mim, revelador (ou antes, a confirmar) a pouca ambição e a aceitação de uma posição de menoridade. E não havia necessidade... Infelizmente, no ano a seguir, viriam mais emprestados e... acabámos na 2ª Divisão – duas épocas (e não uma, como às vezes, suspeitamente, se diz) depois da vitória na Taça. Digo que é suspeito, porque julgo que se pretendeu inculcar a ideia de que tínhamos subido a alturas excessivas – quando foi exactamente ao contrário, a meu ver. Mas disso falaremos outro dia. Voltando ao plantel para 89/90: para piorar, Baidek lesionou-se e assim esteve meses a fio. E Zé Mário jogou dois ou três jogos e foi-se embora (tendo, porém voltado na 2º metade da época).
 
Quanto ao treinador, para substituir Marinho Peres, veio o búlgaro Hristo Mladenov (não confundir com o jogador, Stoicho). Veremos no próximo artigo o que é que tudo isto veio dar...

Belém Dominador (3ª parte)

Belém dominador num mundo sem grandes
Baseado no artigo de Miguel Amaro, publicado no jornal Record em 21 de Julho de 2003 

Com base no estudo realizado pelos jornalistas do jornal Record apresentamos de seguida os dados estatisticos mais relevantes para os 65 campeonatos realizados entre 1938 e 2002.
 
O Belenenses teria sido campeão por 19 vezes, ou seja, quase 30% das vezes, o Boavista tinha conquistado o titulo em 13 ocasiões (20%) , o Vit. Guimarães apareceria em terceiro lugar com 11 títulos festejados (17%) e o Vit. Setubal tinha ganho 7 vezes (11%).
 
Estes quatro emblemas tinham conquistado entre si 50 campeonatos, ou seja cerca de 77% do total. Podemos então dizer que estes seriam os "quatro grandes" do futebol português.
 
Mas 8 outros clubes também tinham festejado o titulo: a Académica e o Atlético por 3 vezes, o Estoril, o Braga e o Portimonense em duas ocasiões e o Barreirense, o Sp Covilã e a CUF por uma vez.
 
O "Belém" seria campeão nas seguintes épocas:
- Década de 30: 38/39 e  39/40
- Década de 40: 40/41, 42/43, 44/45, 45/46 e  48/49
- Década de 50: 51/52, 52/53, 54/55, 55/56, 56/57, 57/58, 58/59 e 59/60
- Década de 60: 60/61 e 62/63
- Década de 70: 72/73
- Década de 80: 87/88

Resumindo, o Belenenses seria 2 vezes bicampeão, 1 vez tricampeão e por uma vez teria conquistado 7 campeonatos seguidos!!!

O "Belém" teria ainda sido vice-campeão 8 vezes e alcançado o terceiro posto em 13 ocasiões. Ou seja, nos 65 campeonatos analisados, teria chegado ao pódio 40 vezes.

Outros dados curiosos são os dados sobre os treinadores campeões. Neste caso o treinador com mais titulos de campeão em Portugal seria Fernando Vaz com 8 campeonatos conquistados, 5 dos quais pelo Belenenses, 2 pelo Vit. Setúbal e 1 com a CUF. Logo a seguir, apareceria José Maria Pedroto com 7 titulos em 3 clubes diferentes (Vit. Setúbal, Boavista e Vit. Guimarães). Dos 12 treinadores com mais de 1 titulo conquistado, Fernando Riera (3), Augusto Silva (3), Otto Glória (2) e Scopelli (2) tinham sido campeões sempre pelo Belenenses.



terça-feira, julho 20, 2004

Não deixemos entristecer as crianças do Belém

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

Volto a citar o Luciano, agora por causa de uma frase que me tocou. A propósito de algo que escrevemos sobre a campanha que conduziu à nossa última vitória na Taça de Portugal, comentou ele: “Tenho tantas saudades dessa vitória, que ainda por cima não soube saborear por falta de noção do que era o Belenenses, que para mim aos 8 anos era só um bocadinho pior que o Benfica e Porto, porque o Sporting era do nosso nível. Como é bom ser criança!” A exclamação final é uma frase que, certamente, tem muitos significados, como todos facilmente entendemos. Pego nela do ponto de vista clubístico.
 
Para muitos belenenses novinhos, a relação com o seu clube começa num deslumbramento encantado, cheio de optimismo e ingenuidade,  convictos de que muitas alegrias e vitórias surgirão, naturalmente, como todos os dias amanhece ou anoitece; de que uma vitória é apenas mais uma das muitas que hão-de vir; de que uma derrota ou uma classificação é somente uma nuvem passageira; de que o seu clube é forte e respeitado; de que tem meios, ambições e possibilidades semelhantes às dos outros, dos quais se fala tanto.
 
Mas, a pouco e pouco, vem a mágoa e a ansiedade: os outros miúdos, quase todos de clubes mais bem sucedidos, que gozam com a nossa ausência de triunfos, o estádio, sempre lindo mas desoladoramente vazio (“então não há muitos belenenses, como nós?”), as vitórias que teimam em não aparecer, as derrotas que nos esbofeteiam duramente, as notícias que quase sempre nos ignoram e quase sempre falam de “outros”.
 
Depois, já na fase final da adolescência, vêm outras constatações, mais racionalizadas mas nem por isso menos dolorosas: temos realmente um déficit de meios para lutar de igual para igual com os mais poderosos; todos os anos se fala em mudar mas as coisas continuam na mesma e, muitas vezes, mudam para pior; vemos que o Belenenses é subalternizado, que não é respeitado como devia, que nos vêm de maneiras bem diferentes daquelas com que olhamos e sentimos o nosso clube. Começamos a perceber que não é por acaso que, na imprensa, nas poucas vezes em que falam no nosso Belém, o fazem a correr, sem conhecimento nem consideração, escolhendo a dedo os nossos jogadores que entrevistam para poderem perguntar sobre outros clubes – o Benfica, e o Sporting e mais o Porto. Com jogadores emprestados, então, chamam-lhe um figo, pois a relação é directa. Mas ainda quando assim não é, descobrem sempre que aquele jogador, nem que seja há 15 anos atrás, jogou num desses clubes ou que, há quatro épocas atrás, se falou uma vez em ele se transferir para um dos tais.
 
E pior, começamos a reparar que, até no nosso estádio, com esses mesmos clubes, tantas vezes jogamos fora, esmagados por um peso de adeptos e por claques mais numerosas, a que só podemos resistir como é possível. Vemos, no nosso próprio estádio, apesar da correcção que caracteriza a maior parte dos sócios e simpatizantes do Belenenses, que massas adeptas de outro clube insultam, agridem, partem, destroem e conspurcam, perante a nossa impotência e às vezes a passividade das forças policiais. (Não sei se alguém aqui já assistiu a um jogo no Restelo, contra um dos clubes com mais adeptos, rodeado por estes. Eu já, uma vez. Foi em 78/79, contra o Benfica. Felizmente, ganhámos por 1-0. Por razões que não vêm ao caso, assisti na Superior Norte, que tinha uns 90% de lampiões. É inenarrável! Que fanatismo cego, que propensão à violência e intimidação, que falta de princípios e educação mínimos, que arrogância parva e bestializante! O clima entre eles próprios é tal, que assisti à maior cena de pancadaria que vi na vida. Depois, à saída, deixavam todas as torneiras abertas (fui ameaçado por ir fechar algumas), davam pontapés no que podiam, como autênticos bichos. A sua ignorância sobre o Belém era total. O árbitro anulou-nos, muito mal (como se confirmou na TV), um golo, por pretenso fora de jogo. Pensando, não sei porquê, que ele tinha mandado marcar penalty contra eles, aprestavam-se a invadir o campo. Depois de verem que, afinal, tinha sido anulado o golo ao Belenenses e marcado fora de jogo, continuaram imperturbavelmente a chamar “gatuno” ao árbitro...etc, etc. Não é que os belenenses sejam o pináculo da perfeição humana mas não dá para comparar. É a diferença entre seres humanos e feras bestiais!).
 
E vemos que até isso (prepotências, actos que denotam o mais bárbaro desrespeito por tudo e todos) é passado em claro pela comunicação social qu,e como tantos outros poderes, são servas desses outros clubes. E olhamos à volta, e vemos que outros clubes, além desses 3, têm suportes, apoios e pressões regionais, camarárias, políticas e económicas, e que apenas nós parecemos estar sós na nossa luta, desamparados e, de certa forma, vulneráveis.
 
E vemos que é preciso ter um grande poder de encaixe, uma grande capacidade de resistir e persistir, de aguentar a adversidade  e a míngua de vitórias. A maior parte dos que nos rodeiam, são dos clubes de que é fácil ser: Porto, Benfica, Sporting... Outros, naturalmente, regra geral em acumulação com um desses clubes, apoiam o clube da sua terra. E nós, porque somos do Belenenses? Sabemos, mesmo quando não somos capazes de nos explicar, mas ninguém nos parece entender...
 
Talvez não seja bem assim para quem mora em Belém, Ajuda ou zonas adjacentes, mas todos os que moramos mais longe, já muitas vezes fomos chocados com a pergunta: “És do Benfica ou do Sporting”? (Não sei, sinceramente, como será, por exemplo, no Porto. Outros poderão explicar com conhecimento de causa). Eu sempre me enfurecia em miúdo. Antes de dizer que era do Belenenses, respondia ferozmente: “Porquê? Só há esses clubes?”. No passado, olhavam-nos com espanto, ás vezes com frases de desafio provocante. Hoje, é pior: podem perfeitamente dizer-nos “pois, está bem, nós somos todos do Belenenses ou da Académica mas diga lá qual é o seu clube a sério, ou quer esconder para não se compremeter”.
 
Hoje, eu olho o ser do Belenenses como uma enorme superioridade. Além do mais humaniza-nos. O Belenenses é e foi simultaneamente grande e fraco, vencedor e vencido. E isso ajuda-nos a saber estar em diferentes circunstâncias, a saber estar com os ganhadores ou os vencidos na terrível competição que costuma ser a existência humana; ajuda-nos a respeitar os que perdem e a não nos rebaixarmos perante os que ganham. Mas, para uma criança, sobretudo quanto não mora perto de Belém, pode ser difícil lidar com os “enxovalhos”.
 
Talvez por tudo isto, vamos aprendendo a defender-nos. Uns, refinando um saudável sentido de humor; outros, tornando-se optimistas incorrigíveis, sempre a dizer que “acreditam mais do que nunca”; outros tornam-se “marretas” militantes, sempre prontos a repetir com Camões “Vi ao bem suceder mal e ao mal muito pior”; outros, fartam-se por uns tempos, como forma de escape; outros (que me custam mais a entender), tornam-se uma espécie híbrida, semi-Belenenses semi-outro clube qualquer, que quando quer dar exemplos de alguma coisa, desconhece os factos e a história do nosso clube, e ilustra com o Benfica, o Barcelona ou o Milão.
 
De uma forma ou doutra, temos que arranjar as nossas carapaças. Mas “as crianças, Senhor?”. Essas, não as deixemos enxovalhar; não as deixemos esbofetear; não as deixemos entristecer. Não esqueçamos como o Belenenses foi grande, não desistamos de querer um Belenenses grande, não permitamos que elas desesperem de ter (algumas) vitórias e alegrias!
 
(Já que estou em maré de citações, quero dizer a satisfacão e orgulho com que, no blog do Pedro Lourenço, vi estas afirmações do Pedro Patrão:”...há 4 coisas que eu detesto no futebol, e por maioria de razão, no nosso clube:1 - Olés, o futebol não é uma tourada, nem os nossos adversários são bois.2 - Lenços brancos a achincalhar o adversário, seja ele qual for. Às vezes estamos nós na mesma situação e detesto que mo façam a mim.3 - Assobios tipo macaco para os jogadores adversário de cor negra. É racismo e também nós temos jogadores negros que se devem sentir mal com isso. Acima de tudo são homens.4 - Cânticos de "apoio" à nossa equipa, insultando o adversário, esteja ele a jogar contra nós ou não. Apoio deve ser pela positiva, não pela negativa. Se não for o adversário presente é estar a dar-lhes importância demasiada (tipo Clube da Rotunda é *****).” E com que orgulho e satisfação vi como todos concordaram! Sim, senti-me orgulhoso de ser belenenses! E acho que é caso para isso!)

Belém Dominador (2ª parte)

Belém dominador num mundo sem grandes
Artigo de Miguel Amaro, publicado no jornal Record em 21 de Julho de 2003 

Anos 40 e 50
Dominio do Sul

As duas primeiras décadas do futebol portugês sem os três grandes teriam sido completamente dominados por clubes do sul. Aliás, por emblemas de Lisboa. Logo a abrir, o Belenenses seria tricampeão, com grande superioridade em relação ao rivais: Barreirense e Académica. Os azuis sofreriam apenas três derrotas em três épocas e numa delas (39/40) seriam campeões invictos.
O Barreirense seria o primeira a travar o apetite devorador dos do Restelo com a conquista do campeonato em 1941/42. Outras excepções nessa década foram o Atlético, com os seus únicos três troféus, e o Estoril, bicampeão entre 46 e 48.
Os anos 50 seriam um passeio para os azuis. Durante essa década, o "Belém" festejaria nove títulos em dez possíveis. A excepção aconteceria na temporada 53/54 com o Sp. Covilhã a conquistar o único titulo da história.
 
Anos 60 e 70
Décadas de mudança

Os anos 60 pareciam ser pintados de azul com os do Restelo a festejar mais dois títulos, intercalados por outro campeonato histórico (61/62) por ter sido o único no qual a CUF terminava em primeiro lugar. Mas surgem novas potências e a Liga passaria a ser mais animada e competitiva pela concorrência próxima entre vários clubes. Depois da CUF, o V. Guimarães, orientado por José Vale, conquista o seu primeiro título na época 63/64. No ano seguinte é o outro Vitória, o de Setúbal, a estrear-se no topo do pódio e, depois dos minhotos somarem segundo troféu, seria a vez de a Académica se sagrar campeã. O "velho capitão" Mário Wilson guiaria a Briosa a dois títulos seguidos. A fechar os anos 60 e a iniciar os 70, o V. Setúbal apareceria como grande dominador (tetracampeão eentre 68 e 72). Essa década permitiria também mais duas estreias em termos de conquistas de campeontaos. Primeiro, o Boavista, de Pedroto, "bi" entre 74 e 76, depois, o Sp. Braga, também com dois troféus seguidos, entre 77 e 79, primeiro comandado pelo argentino Imbelloni, depois por Fernando Caiado.


De 1980 até hoje
Os "novos grandes"

A partir de 1980, o futebol passaria a ser dominado pelo Boavista e V. Guimarães, representando o papel desempenhado anteriormente pelo Belenenses. Essa superioridade foi tal que, em 24 campeonatos, só 4 lhe escaparam.
O primeiro a conseguir incomodar os "novos grandes" seria o Portimonense, único clube capaz de coocar o Algarve no mapa dos campeões nacionais. Primeiro, em 82/83, comandados por Artur Jorge (no seu único título de campeão), cortariam a meta com um ponto de vantagem sobre o Rio Ave (a melhor época de sempre dos de Vila do Conde) e V. Guimarães. Dois anos depois, já orientados por Manuel josé, os de Portimão voltariam a aconquistar o título, desta vez com vantagem de dois pontos sobre o Boavista. Durante a década de 80 só mais duas excepções: o V. Setúbal, de Manuel Oliveira (83/84) e o Belenenses, de Marinho Peres (87/88). Depois de 1988, o troféu passa a ser exclusivo de Boavista e V. Guimarães, com particular destaque para os últimos cinco anos, período no qual os axadrezados, orientados por Jaime Pacheco, seriam tetracampeões e ultrapassariam os vitorianos, com 13 títulos contra 11.

(continua)

segunda-feira, julho 19, 2004

Belém Dominador (1ª parte)

Belém dominador num mundo sem grandes
Artigo de Miguel Amaro, publicado no jornal Record em 21 de Julho de 2003
 
A menos de um mês do inicio de mais uma Liga muitos adeptos apostam já no futuro campeão. Benfica, FC Porto e Sporting surgem naturalmente como grandes favoritos e talvez únicos candidatos. Mas qual seria a sua aposta se os três grandes não existissem? É dificil imaginar o futebol português sem estes três emblemas mas foi que fizemos e aqui apresentamos o resumo de 65 classificações finais.
 
Durante 65 anos de campeonato nacional, o futebol português foi dominado por Benfica, Sporting e FC Porto. Estes emblemas reunem a simpatia da esmagadora maioria dos adeptos e tornou-se normal encarar cada Liga numa corrida a três, na qual os restantes participantes surgem praticamente como figurantes. A realidade é, e sempre foi, esta, mas se entrarmos no mundo do faz de conta chegamos a uma conlcusão: o futebol português era muito mais equilibrados e emotivo se os três grandes não existissem. O Belenenses seria o clube com mais titulos, mas outros onze emblemas já teriam festejado a conquista do troféu.
 
É dificil imaginar, mas sem os três maiores clubes nacionais tudo seria muito diferente. O "Belém", como único grande de Lisboa, teria provavelmente milhões de adeptos espalhados pelo País. O Boavista, isolado na Invicta, seria o rival por excelência. Mas o Minho estaria bem representado por V.Guimarães e Sp. Braga e o V. Setúbal talvez não andasse no sobe-e-desce, assumindo-se como grande representante da região. O Algarve também já teria feito a festa por duas vezes, ambas graças ao Portimonense e até o interior conheceria a glória futebolistica com o Sp. Covilhã campeão. E, a julgar pela aura de "clube simpático", a Académica seria um caso muito sério.
 
A partir de agora entramos num Mundo Novo. Águias, leões  e dragões deixam de existir e fazemos uma retrospectiva de 65 anos de campeonato. Não nos limitamos a retirar apenas os três grandes das classficações finais de cada ano, pois esse método não representaria os verdadeiros campeões. Ou seja, se um clube ficou no quarto lugar da Liga, mas conquistou vários pontos contra os habituais três primeiros, a sua classificação não teria sido a mesma se esses jogos não tivessem existido. Por isso, apagámos os resultados do Benfica, Sporting e FC Porto de todos os campeonatos e fizemos as novas tabelas finais.
 
A conclusão pode também revelar resposta a outra velha questão do futebol português: quem é afinal o quarto grande? Se dependesse dos resultados deste estudo não restariam dúvidas , o Belenenses seria mesmo a quarta potência, beneficiando do passado com duas décadas de domínio quase absoluto. Mas o seu ultimo titulo teria já sido festejado há 15 anos (em 1987) e assim corriam sérios riscos de ser igualados por Boavista e V.Guimarães nos próximos anos como novos dominadores do futebol luso.
 

Esta seria a melhor equipa de sempre do futebol português se os três grandes não existissem. Este plantel do "Belém" de 1959, orientado por Fernando Vaz, conquistaria o quinto titulo num total de sete seguidos. E em 12 anos, de 51 a 63, ganharia a prova dez vezes. Matateu (o terceiro em baixo, a contar da esquerda) era o goleador e grande craque dos azuis.
 
(continua)

domingo, julho 18, 2004

Ainda bem que sou do Belenenses!

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

Gostava de começar por dizer que tenho amigos e conheço pessoas que estimo entre adeptos do Benfica, do Sporting e, embora em menor número por questões geográficas, do F.C.Porto. Em qualquer clube há pessoas com e sem qualidade humana. Sou do Belenenses mas não sou faccioso a ponto de ser cego.
 
Esclarecido este ponto prévio, posso então deixar este desabafo: uma tarde com um “lampião” e um “lagarto” a falar de futebol é de enlouquecer. Irra! Tanta ignorância, tantas frases vulgares, tanta falsa rivalidade – porque, afinal, se identificam até muito! Só conhecem o que os jornais propalaram nos últimos dias. Só dizem absurdos. Só falam de vitórias a todo o custo. Desprezam tudo o resto.
 
Às tantas deixei de ripostar. Só pensava comigo: que sorte ser do Belenenses! Dá-nos tão poucas alegrias, em termos de vitórias, mas é um clube rico – de sentimentos, de dignidade, de muitas experiências e fases diferentes, de uma continuada luta pela resistência. É outra maneira de ser... outra humanidade... outra alma, mais nobre e profunda!
 
Não queria ser desses outros clubes, por mais vitórias que tenham, por mais triunfos que nos fujam no Belenenses. Não trocaria este sentimento pelo Belém por nenhum título deste mundo. Seja campeão ou despromovido (embora devamos lutar para ser campeões!), na 1ª Divisão ou nos Distritais, ainda que sem dinheiro e sem vedetas, o Belenenses é sempre o Belenenses. É muito grande... é enorme, belo e incomparável!
 
Belenenses... sempre!

sábado, julho 17, 2004

Interrogações

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

É já na próxima 4ª feira que o Belenenses disputa o primeiro jogo da nova época futebolística, frente ao Olhanense, e em Santiago do Cacém – na sequência das diligências feitas por dedicados adeptos azuis que ali residem.
 
Trata-se apenas de um jogo, para mais particular e de preparação; todavia, como primeiro da época ele suscita uma especial curiosidade.
 
Não podemos, certamente, embandeirar em arco se as coisas saírem bem ou desesperar se forem ao contrário. Entretanto, este jogo pode dar algumas indicações para responder às dúvidas que subsistem. Na verdade, apesar de o plantel ter sido considerado como fechado (estará mesmo, quer nas entradas, quer nas saídas?), subsistem muitas interrogações importantes e interessantes. Por exemplo:
 
* Que sistema de jogo privilegiará Carvalhal? Um mais ou menos linear 4-4-2? Um 5-3-2, a defender, transformado em 3-5-2 a atacar (e vice versa) com três centrais e dois jogadores nas laterais, a fazerem tanto de defesas como de médios-ala (talvez Amaral + Brasília ou Eliseu, em vez de Sousa + Cristiano, hipóteses prováveis no primeiro sistema)? Ou apostará num sistema com 3 atacantes, numa base de 3-4-3 (a atacar) e 5-2-3 (a defender), neste caso precisando de dois médios muito consistentes e rigorosos? Ou, ainda, ficará num muito português 4-2-3-1 (improvável, pois temos poucas soluções para trinco)?
 
* Que aposta haverá em jogadores jovens formados em Belém, como Gonçalo Brandão e Eliseu?
 
* Que valem jogadores que a maior parte de nós nunca vimos jogar? Refiro-me naturalmente a Amaral e a Sandro (devo dizer que estou optimista quanto a este, achando que, se a qualidade se confirmar, então devemos aceitar com naturalidade os seus 31 anos. Neste momento, não temos hipóteses financeiras de adquirir um jogador de verdadeira qualidade muito mais jovem; por outro lado, um defesa tende a “durar” mais do que, por exemplo, um centro-campista).
 
* Será que o Rodolfo Lima confirma as expectativas de muitos (não as minhas, confesso)? É que, além do mais, e apesar de tudo, a nossa camisola pesa mais que a do Alverca. E porque no plantel há 3 avançados de características semelhantes – Antchouet, Lourenço e R.Lima?
 
* Será desta que o Neca consegue explodir de vez? O Andersson poderá jogar no seu lugar natural? O Pelé será utilizado a trinco ou a defesa?
* Que “onze” tem o treinador na cabeça? Claro que isto depende muito da primeira questão. Estou curioso porque, neste momento, por uma série combinada de razões, só dou o Marco Aurélio como titular de caras. Talvez também o Lourenço (pena ser emprestado... e pena, dessa forma, poder tapar o Eliseu), o Sandro (se for o que julgo) e... não sei mais. “Aceitam-se apostas...”
 
Hipóteses de onzes titulares:
 
Em 4-4-2... M. Aurélio; Sousa, Sandro, Mangiarratti e Cristiano; Pelé, Andersson, Zé Pedro e Eliseu (ou Neca e Zé Pedro); Antchouet e Lourenço.
 
Em 3-5-2 / 5-3-2.... M.Aurélio; Mangiarrati, Sandro, Cristiano; Amaral, Pelé, Andersson, Zé Pedro e Brasília (Eliseu?); Antchouet e Lourenço.
 
Em 3-4-3 / 5-2-3.... M.Aurélio; Amaral, Mang, Sandro, Cristiano e Brasília; Pelé e Andersson; Antchouet, R.Lima e Lourenço. Acho esta a hipótese mais improvável; acho que Carvalhal não deixará de apostar em Zé Pedro.
 
Em 4-2-3-1.... M.Aurélio; Sousa, Mang, Sandro, Cristiano; Pelé e Andersson; Zé Pedro, Neca e Lourenço; Antchouet (mas lá estaria o Andersson a trinco... a não ser que o Tuck fizesse o lugar, avançando Andersson para o lugar de Neca...).
 
Enfim, são meras conjecturas do que o treinador pode ter na ideia. Mas, pessoalmente, gostava muito que o Gonçalo Brandão, o Eliseu, o Neca e o Ruben Amorim se impusessem como titulares...
 
Finalmente duas ou três observações:
 
Como já várias vezes disse e expliquei, sou contra o recurso a empréstimos de jogadores de outros clubes portugueses (salvo numa situação de reciprocidade); mas não tenho nada contra os jogadores que são objecto desse empréstimo, conquanto honrem a nossa camisola. A minha posição é de princípio: e, por isso, independente de, a título imediato, ficarmos, por exemplo, em 4º lugar a contar do cimo, ou 4º lugar a contar do fim da tabela. É uma questão de identidade clubística, de marcação do nosso espaço, e de horizontes para o futuro.
 
Apesar de ter feito uma má época o ano passado, Verona dava um toque de classe à equipa. Ainda tinha futebol para dar e todos os jogadores têm uma época menos boa. Não veio ninguém com as suas características. Acho que foi mal dispensado. E também não sei se foi bom deixar sair o Hélder Rosário. Tinha uma boa margem de progressão.
 
Continuo a achar que o lado esquerdo da defesa deveria ter um lateral de raiz e que precisamos de um jogador alto como referência na área. Até porque, para diferentes situações, necessitam-se diferentes soluções. E, também, porque os treinadores podem ficar anos, meses ou até semanas... Oxalá o Carvalhal fique muitos anos bem sucedidos no Belenenses. E oxalá esta seja uma época de transição para nos aproximarmos de um Belenenses forte e à altura da sua história!

sexta-feira, julho 16, 2004

Inconformismo não é pessimismo

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)
 
Portugal não esteve directamente envolvido na 2ª guerra mundial. Outros países estiveram – e, em 1945, além das ruínas materiais um pouco por todo o lado, tinham exaurido grande parte dos seus recursos humanos e financeiros no conflito. Tinham que ser reconstruídos. Em muitos aspectos, significava começar novo. Aparentemente, numa situação bem pior do que a portuguesa.
 
No entanto, tiveram uma visão larga, arrojada e de futuro. Ousaram e arriscaram, com um planeamento com pés e cabeça. Portugal continuou na sua mentalidade de pobrezinho-coitadinho-pequeninho-honradinho-poupadinho. Passada uma época, o nosso país continuava a marcar passo, com dirigentes a dizer “eu avisei a Europa!”. E a tal Europa, que segundo os mesmos nossos dirigentes, mergulharia no caos político, económico e social, já estava melhor do que nós em todos os aspectos.
 
Desculpem esta digressão histórico-política. Não vou abordar questões políticas. É uma mera introdução, que acho que tem relação com o que se passa no Belenenses.
 
Há 15 anos que, no clube, só se fala em contenção financeira e em sermos poupadinhos para não comprometer o futuro. Mesmo as direcções (Ferreira Matos / Cabrita; José António Matias) que lançaram o caos económico no clube, foram eleitas na base da apologia da poupança e de fazer frente às falsas promessas e megalomanias (está escrito; e tenho guardado!). E sempre com os mesmos chavões: os outros, despesistas e mafiosos, vão rebentar! E nessa altura é que se vai ver que nós é que tínhamos razão! Mas, apesar disso...
 
... Apesar disso, ao fim de 15 anos, a conversa é sempre a mesma. Neste período, em termos futebolísticos, descemos duas vezes de divisão; estivemos duas vezes em situações ruinosas em termos financeiros; o melhor que conseguimos foram um 5º lugar e dois 6ºs lugares; apesar de historicamente sermos o 4º clube português, as nossas classificações médias, neste período, andam pelo 10º - 12º lugar; as nossas assistências médias diminuíram três vezes; o clube perde projecção ano a ano; há  quase uma década que não temos um jogador convocado para a selecção; não fomos uma única vez classificados para as competições europeias; tivemos derrotas históricas, recordes negativos de golos sofridos e de golos marcados; estivemos quase a ficar sem o Bingo. E continuamos sempre a dizer... “não há dinheiro”!... E as direcções saem umas das outras, numa linha de quase continuidade!... Alguém se lembra do percurso directivo de José António Matias antes de chegar a Presidente? Não basta atirar-lhe pedras; é preciso lembrar como é que as coisas foram.
 
E os outros? Sejamos objectivos: o Boavista foi campeão (igualando-nos nisso), foi 2 vezes à Liga dos Campeões, teve vários lugares de pódio, ganhou Taças de Portugal e uma Supertaça, esteve numa meia final da Taça UEFA; o Braga, o Marítimo, o Vitória de Guimarães, o Leixões, o Nacional, o Beira Mar, o União de Leiria e já nem me lembro mais quem, foram às competições europeias, em alguns casos várias vezes; Estrela da Amadora, Farense, Beira Mar, União de Leiria, Marítimo e já-nem-me lembro-mais-quem, estiveram em finais da Taça; competimos agora e até somos ultrapassados por Moreirenses e Alvercas; o Vitória de Guimarães leva mais adeptos fora do que os que nós...
 
Gostaria de deixar claro que também não quero ver o Belenenses na lama dos caloteiros; que sou contra a demagogia e as promessas fáceis (embora entre nós, infelizmente, até já as promessas, neste período, sejam pequenininhas, ridículas...), contra os aventureirismos, contra os fogos de palha que ardem crepitosamente e se apagam depressa; que não gosto de “mafiosos” nem de “vendedores de ilusões”; que prefiro mil vezes ter o nosso actual Presidente do que, por exemplo, um Loureiro ou um Vieira; que não pomos minimamente em causa a honestidade de qualquer dirigente do nosso clube e/ou da SAD.
 
Mas fico prostrado quando vejo que continuamos a falar em “crença”, “vamos ver”, ”estou optimista” (de que ficamos em 10º lugar ?!), “com este treinador é que é!”, etc, e que, entretanto, os outros, cada vez mais dos outros, nos vão passando à frente.
 
E aqui, cito as ilustrativas palavras do Luciano, que dizem tudo: “Quando andava na escola, havia um miúdo que era gozado por todos e, no fim, era sempre o culpado de tudo. Nós somos esse miúdo no futebol”. É isso mesmo, Luciano! A imagem é perfeita para mostrar o que tem sido o Belenenses. E será assim, enquanto nos contentarmos com demasiado pouco. Enquanto qualquer coisa nos servir. Enquanto não houver outro nível a fazer, outro patamar de exigência, outra coerência de gestão e de organização. É fácil culpar só os dirigentes... mas não será que o que fazem (ou não) está em consonância com o nosso (in)conformismo?
 
Inconformismo não é pessimismo!

quinta-feira, julho 15, 2004

Calendário da 1ª volta da SuperLiga

1ªJornada: 29 de Agosto
Belenenses - Marítimo
 
2ªJornada: 12 de Setembro
Rio Ave - Belenenses
 
3ªJornada: 19 de Setembro
Belenenses - União de Leiria
 
4ªJornada: 26 de Setembro
Estoril Praia - Belenenses
 
5ªJornada: 3 de Outubro
FC Porto - Belenenses
 
6ªJornada: 17 de Outubro
Belenenses - Penafiel
 
7ªJornada: 24 de Outubro
Sporting CP - Belenenses
 
8ªJornada: 31 de Outubro
Belenenses - Boavista
 
9ªJornada: 7 de Novembro
Beira-Mar - Belenenses
 
10ªJornada: 13 de Novembro
Belenenses - Moreirenses
 
11ªJornada: 21 de Novembro
Académica - Belenenses
 
12ªJornada: 28 de Novembro
Belenenses - Braga
 
13ªJornada: 5 de Dezembro 
Guimarães - Belenenses
 
14ªJornada: 12 de Dezembro
Belenenses - Benfica
 
15ªJornada: 19 de Dezembro
Nacional - Belenenses
 
16ª Jornada: 9 de Janeiro
Belenenses - Gil Vicente
 
17ªJornada: 16 de Janeiro
Setúbal - Belenenses

Não há dinheiro... Só se houver necessidade!

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

Surpreendentemente, tomámos conhecimento de que, segundo responsáveis da SAD no Belenenses, não há mais contratações, nomeadamente a do nº 10, porque... não há dinheiro. Só se contratará mais alguém se, daqui a uns meses, se verificar que é necessário!

Estas afirmações provocaram a maior surpresa e, na maioria dos casos, uma grande decepção (ou até desânimo) entre nós.

Com efeito, como é possível que clubes com orçamentos idênticos aos nossos (Braga, Marítimo) tenham obtido melhores reforços, com menos empréstimos? Como é possível que, com a indemnização que o Benfica acordou pagar pelo caso Paulo Madeira, não haja já dinheiro para mais? Contratados, mesmo, houve só dois: o Zé Pedro e o Sandro. E, ao que parece, a custo zero. Os outros são emprestados (e já disse que sou totalmente contra jogadores emprestados por clubes portugueses, salvo numa base de troca); por outro lado, saíram jogadores, alguns deles com a justificação de terem vencimentos muito altos... então, como é que pode não haver dinheiro? Sobretudo, como pode deixar de haver dinheiro de um dia para o outro, literalmente de um dia para o outro? Os dirigentes da SAD distraíram-se e, afinal, não havia dinheiro quando anunciavam novas contratações? Alguém assaltou a nossa tesouraria? O Benfica voltou a recusar pagar, enquanto não comprar os jogadores que lhe faltam?

E no meio disto tudo, qual é a linha de rumo? Há alguma coerência? Ficaram o médio ofensivo e o ponta de lança referência na área de fora porque se decidiu assim, ou apenas porque calhou serem os últimos, e entretanto a SAD descobriu que não há mais nenhum.

E, contudo, diz-se: ...se houver necessidade...”. Se houver necessidade, para quê? Por regresso de emprestados ao clube de origem? Por vendermos alguém? Por o treinador sair e o que vem a seguir, entretanto, querer outro tipo de jogadores? Para não descermos de divisão? Para ficarmos nos tais 8 ou 9 ou 10 primeiros (já houve as 3 versões)? Para chegarmos à Taça UEFA? Para chegarmos à Liga dos Campeões? Para ganharmos o Campeonato? Eu não sei, mas isso não é grave. O pior é se ninguém sabe.

Pessoalmente penso que ou temos e usamos, dentro de limites de rigor e equilíbrio, ou não temos (sem entrar em imprudências) e, então, melhor fora nunca se falar nisso.

O que receio é que continuemos na mesma posição de “assim-assim já chega”. A essa postura de esperar que tudo corra bem, sem fazer o máximo para que assim seja, aplica-se a frase popular “Fia-te na Virgem e não corras”.

Eu acho que é melhor correr – e muito! E acho que devemos manter vivo o orgulho Belenense!

quarta-feira, julho 14, 2004

Temos o plantel fechado

Algo de muito estranho se passa no Restelo, pois segundo os jornais desportivos de hoje (A Bola, Record e O Jogo) o plantel do nosso Belenenses está fechado com a contratação de Luís Lourenço ao Sporting, por empréstimo.

Assim sendo, temos neste momento um plantel com 25 atletas, 2 dos quais estão a ouvir há 2 meses que não interessam ao clube, mas com os quais teremos de contar. Qual será a motivação desses dois jogadores?

Rui Casaca refere que o orçamento para a próxima época já está todo atribuído, no entanto até ontem havia disponibilidade para tentar contratar Jorginho ao Vitória de Setúbal. Em que é que ficamos??? Havia disponibilidade para uma transferência de algumas dezenas de milhares de contos, et voilá, de repente o dinheiro desaparece??? Ou em Dezembro haverá novamente dinheiro, se os resultados forem tão maus que a isso obriguem??? Serão os nossos orçamentos feitos por meia-época, consoante corre a 1ª metade da época sabemos o que gastaremos na 2ª???

O que me preocupa não é o plantel em si que, apesar de poder ser reforçado nalgumas posições específicas, tem um mínimo de qualidade. É a falta de uma linha de orientação que me preocupa, é o treinador e dirigentes andarem há 2 meses a falar num "caixote" para o ataque e contratarmos o "porta-chaves" Lourenço, é toda a gente falar há 2 meses no Jorginho porque precisamos de um médio de ataque e não vir nem o Jorginho nem mais nenhum, é andarmos há 2 meses a ouvir que o Carvalhal quer uma linha de ataque com um avançado possante e outro móvel e agora, quando contratamos o Lourenço, o Site Oficial vir com uma conversinha de que vamos ter um ataque muito móvel...

É o Belenenses...

A DÉCADA DE 80 (Continuação) - Parte III – Pódio e Vitória na Taça (cont.) - Subsecção II – A Época de 88/89. A Taça de Portugal



Como tínhamos anunciado, concluiremos esta Parte III da Década de 80 com a carreira que nos conduziu até à vitória na Taça de Portugal em 1989.

Gostava de dizer que havia quem desde o início achasse que teríamos nessa prova e época uma grande oportunidade e lançasse sementes de ambição e de sede de conquista...

Curiosamente, e acho que é justo referi-lo, a campanha na Taça começou com 3 jogos na fase em que Mortimore era o treinador: 3-0 contra o Sintrense, no único jogo fora de casa; também 3-0 contra o Covilhã; depois, 7-2 contra o Estrela de Portalegre.

Já com Marinho Peres, seguiu-se o F.C.Porto, nos oitavos de final. Creio que terá sido em meados ou finais de Fevereiro, numa 4ª feira à tarde, no Restelo (como, aliás, foram 4ª f à tarde todos os jogos disputados no nosso estádio na mesma competição, durante essa época). Não consigo recordar exactamente o aspecto geral do estádio mas, obviamente, pela hora a que o jogo foi disputado, não teve uma grande assistência. Julgo que se teria ficado pelas 10.000 pessoas ou talvez só um pouquinho mais.

A história do jogo pode, antes de tudo, resumir-se nisto: o Belenenses começou a defender mas foi atacando mais, subindo no terreno, à medida que o jogo passava. Progressivamente.

Começámos, de facto, com uma postura que deixava ao F.C.Porto a iniciativa. No entanto, mantivemos sempre a ameaça de contra-ataque e uma pressão muito grande sobre os jogadores portistas quando estes detinham a bola, pressão essa que incentivámos das bancadas com a curiosa expressão “Pica! Pica!”.

Ao regressar do intervalo, equilibrámos o sentido do jogo e a posse de bola e, à medida que o jogo se encaminha para o final dos 90 minutos, passámos a ter algum domínio territorial, a maior insistência no ataque, a maior parte da iniciativa. Agora eram os jogadores do F.C.Porto que corriam atrás dos nossos, o que, num registo humorístico, levou alguém a gritar com suficiente ímpeto para se ouvir à distância: “Eh pá, larga o homem que ele é casado!”.

Persistindo o empate a zero, seguiu-se o prolongamento e, então, o Belenenses arriscou tudo para resolver o jogo, evitando que a eliminatória passasse para as Antas. Até que, quase a terminar a primeira parte do jogo, veio enfim o golo que ansiávamos. Foi um canto do lado direito do ataque belenense (na baliza da superior Norte). Mladenov, com o seu pé esquerdo, fez a bola descrever um arco e esta, por centímetros, ultrapassou a baliza defendida por Vitor Baía (que realizava então o seu 2º ou 3º jogo como titular).

O lance gerou bastante polémica, com os portistas a contestarem a sua validade; o facto, porém, é que as imagens televisivas, em repetição e de vários ângulos, esclareceram que a bola entrou mesmo! Julgo também importante referir que não foi um lance ocasional ou de sorte pois, como já disse, Marinho Peres fazia treinar muito as bolas paradas, Mladenov era um executante exímio e colocámos vários jogadores na área a pressionar. Foi um lance intencional.

No tempo que restou, defendemos naturalmente o resultado, com muita garra e determinação, lançando ao mesmo tempo perigosos contra-ataques que nos poderiam ter dado o 2-0.

Seguiu-se o Espinho, que nos provocou um grande susto. A 1ª parte foi medíocre, terminando em 0-0. Regressámos melhor do intervalo, e colocámo-nos em 1-0 mas, entretanto, a equipa revelou alguma disciplência e consentiu o empate. Pior ainda: quase em cima dos 90m, há um perigoso contra-ataque do Espinho, dois jogadores isolados face a Jorge Martins, este é torneado, e... não é golo, porque um desses jogadores do Espinho se precipita e, em fora de jogo, ainda toca na bola que, de qualquer maneira ia para as redes. A sorte esteve connosco, nesse momento... e felizmente que a soubemos agarrar pois, no prolongamento, a produção de jogo subiu bastante e garantimos a vitória por 2-1.

E veio o sorteio da meia-final, que ditou os jogos Belenenses-Sporting e Benfica-Braga.

Cabe aqui dizer que, para mim, as partidas em que verdadeiramente todo os meios instintos belenenses vêm ao de cima, em que sofro com muita intensidade, tenho paixão, raiva, exaltação de alegria e sabor a glória, ou picos de desânimo e de sentimento de humilhação (conforme a sorte do jogo), são aqueles em que defrontamos o Benfica e o Sporting. E, como clube, ainda mais com o Sporting do que com o Benfica (em que o que mais me irrita é a propaganda jornaleira). Depois, numa 2ª linha, vem o Porto. A seguir, numa 3ª linha (já mais esbatida), vêm, embora deteste admiti-lo até para mim próprio, três outros clubes, mas só em algumas épocas: Boavista, Vitória de Setúbal e Marítimo; e também o Estoril (o que não me impede de reconhecer a injustiça da sua eliminação este ano), o Estrela da Amadora, o Espinho e (independentemente do sucedido este ano), o Moreirense. Seja com quem for, claro, quero sempre muito que o Belenenses ganhe. Mas o que mexe realmente comigo é o Sporting e o Benfica; só a seguir, o Porto (e desde há 3 anos, confesso, o Boavista). Não me vou alargar justificando os porquês.

Dito isto, e tratando-se de uma meia final em que tinha grande esperança numa vitória importantíssima, julgando que ela precipitaria um agudizar na crise do Sporting, compreende-se que esse tenha sido um dos jogos em que o meu sistema nervoso sofreu maiores açoites.

Estiveram mais de 30.000 pessoas no Restelo. Numa 4ªf à tarde, era favorecida a presença de público mais jovem, no que o Sporting tinha maior proporção de vantagem. Adolescentes vestidos de verde pareciam surgir como cogumelos, vinham de todos os lados, autocarros e autocarros, uma massa impressionante. Até alguns minutos do jogo, sentíamo-nos tão poucos...embora quando se iniciou a partida a bancada dos sócios se tivesse composto bem mais e, ao mesmo tempo, fosse possível descortinar algumas “bolsas” azuis no meio da massa verde. O certo, de qualquer modo, é que tínhamos a noção que precisávamos de defender a nossa casa, erguer barricadas, resistir! Espero fazer-me entender com estas palavras...

Num 1º tempo equilibrado, o Sporting foi mais objectivo e, mesmo em cima do intervalo, põe-se em vantagem! Que facada sentimos no peito! E que eternidade foi aquele intervalo! (Os jogadores vieram a declarar que eles os incentivou dizendo que estavam a jogar bem e, num golpe de mestre em termos psicológicos, disse-lhes que só precisavam de fazer era dois golos – pois não queria levar a decisão para Alvalade!

Na 2ª parte, embora pressionando, não conseguimos assentar jogo durante uns minutos mas, depois, foram vagas sucessivas de assalto à baliza do Sporting, numa cavalgada portentosa e empolgante. Sentíamos o golo eminente e, por volta dos 20 minutos, acabou em frustração a nossa explosão de alegria, quando é anulado o golo do empate, por Baidek. Mas não haveria que esperar muito (embora o tempo já nos parecesse voar e fugir). O domínio era agora nosso, dentro do campo e no clamor que vinha das bancadas. A bola tinha que entrar! E entrou mesmo, aos 24 minutos, outra vez a cabeça de Baidek, que se eleva pujante e, correspondendo a um canto apontado, do lado direito, por Mladenov, faz o empate! É o alívio e a galvanização: “agora vamos continuar em cima deles, vamos para a vitória” – pensávamos, pedíamos, incentivávamos. E fomos! Quatro minutos depois, livre de Mladenov, agora na esquerda, e cabeçada magnífica de Saavedra, à altura do estômago, fazendo a bolar descrever um arco magnífico! Um grande golo, os belenenses em delírio, o sofrimento volvido em alegria! “Está ao nosso alcance! Não vamos deixar escapar!”

O Sporting reagiu desconjuntadamente. O jogo era nosso. A 7 minutos do fim, a cereja no cimo do bolo: Saavedra lança Mladenov, este é mais rápido que Venâncio, fica só com o Guarda Redes leonino e, quando este sai fora da área, pica-lhe a bola por cima: era ao 3-1! E era a vitória certa! Era a euforia, o regresso ao Jamor, a Cruz de Cristo novamente forte e altaneira, o triunfo sobre os rivais, o cheiro de vitória, Belém de novo a chegar-se ao topo! A equipa, nesse fantástico dia 12 de Abril de 1989, foi esta: Jorge Martins; Teixeira, Baidek, Sobrinho e Zé Mário; Juanico e Carlos Ribeiro (ao intervalo, Saavedra); Chiquinho, Macaé e Mladenov; Chico Faria (aos 88m, José António). Sendo outro finalista o Benfica, já campeão, garantimos nesse dia a participação na Taça das Taças da época seguinte.

Dia 28 de Maio de 1989, data da última grande conquista do Belenenses no futebol: a vitória na Taça de Portugal. Nessa jornada inesquecível, perante cerca de 60.000 espectadores, dos quais cerca de 20.000 adeptos azuis, com o Estádio Nacional a rebentar pelas costuras (e, por não ter cadeiras, com uma lotação muito superior à de hoje), o Belenenses bateu o Benfica por 2-1. As bandeiras azuis voltaram a agitar-se triunfantemente, 29 anos depois da anterior Taça de Portugal, e 43 anos depois do Campeonato Nacional!

Foi uma final intensíssima, contra o Benfica, que ganhara o campeonato, e que tinha nas suas fileiras jogadores como Veloso, Mozer, Valdo, Diamantino e Vítor Paneira. À maior valia técnica dos jogadores encarnados (contratados por um poder financeiro que não tínhamos nem de perto nem de longe), opôs o Belenenses a sagacidade técnica de Marinho Peres e o arreganho, a vontade e a crença indomável dos seus jogadores. Eles parecem ter correspondido ao estado de espírito com que entrámos no Jamor: a alegria de estar na festa, algum receio mas uma voz íntima a dizer: “Tem que ser! É agora ou nunca!”. E foi! (esta frase, “tem que ser”, repetia eu aos meus alunos, dizendo que o Belém ia ganhar. Naquela Escola (em que, curiosamente, foi minha colega a mulher de um futuro presidente do clube), os não muitos alunos azuis adoravam-me e até aos benfiquistas e sportinguistas eu fiz o Belém respeitado. Talvez tenha lá deixado alguns “bichinhos”. Quando alguém dava uma piada sobre o Belenenses, eu dizia: “O senhor, quando falar no Belenenses, primeiro tira o chapéu!”. E quando eles replicavam ”mas eu não tenho chapéu””, eu respondia “então, cale-se!”. A outros perguntava: “então não tem vergonha de ser do Benfica” (ou do Sporting conforme os casos)? “Que falta de nível e de originalidade!”. Se me vinham falar de tricas entre o Benfica e o Sporting ou entre o Benfica e o Porto, eu dizia: “isso é tudo o mesmo! Diferente é ser do Belenenses!” A verdade é que quando na manhã seguinte à vitória entrei na escola, recebi uma ovação estrondosa e centenas de “miúdos” gritavam “Viva o Belém!, etc.!”

Bem, mas voltemos ao Jamor. Lembro-me que deixámos (eu e o meu pai) o carro muito longe do estádio e aquela caminhada parecia uma espécie de peregrinação. Sentia-me animado ao ver que na multidão que se encaminhava para o estádio havia uma grande proporção de azul. Indo naturalmente para o Topo Norte, aí encontrámos já muitos milhares de belenenses; e muitos mais chegariam ainda. Deve-se dizer que foi uma das maiores enchentes do Estádio Nacional. Os benfiquistas eram mais mas não assim muito mais. Conseguimos quase equilibrar nos incentivos – e, claro, superar bastante nos minutos finais.

O Belenenses alinhou: Jorge Martins; José António; Carlos Ribeiro (depois, Teixeira), Sobrinho, Baidek e Zé Mário; Chiquinho, Juanico, Macaé e Adão; Chico Faria (depois, Saavedra).

Os golos: a pouco mais da 1º parte, passe de Juanico a desmarcar Chico Faria, que arranca como uma flecha, naquele seu jeito de colar a bola aos pés, dá um nó cego a Mozer, que fez uma falta e ficou a chamar a atenção ao árbitro para marcar a falta que ele próprio tinha cometido, o que a acontecer beneficiaria o infractor e faria parar o nosso avançado (isto foi o que se passou e não a versão que Mozer, 15 anos mais tarde, veio contar, i.e., que teria sido ele a sofrer uma falta! Patético, incrível!). Só com o Guarda-Redes pela frente, Chico Faria desvia-lhe subtilmente a bola, que vai vagarosamente para a baliza. Quando acabou a eternidade que demorou a ultrapassar o risco de baliza, foi o delírio entre os beléns, a maior parte deles situados por detrás dessa mesma baliza, no Topo Norte.

Na 2ª parte, a uns 20 minutos do fim, o Benfica empatou e tememos o pior. Mas o Belenenses encheu o peito, foi lá à frente, ganhou um livre directo, e Juanico, a 30 metros da baliza, arrancou um tiro formidável (que andou semanas a passar na Eurosport) e a bola foi indefensavelmente para o fundo da baliza. Foi uma explosão ainda maior! Parecia quase irreal! Por isso, pessoalmente, nem festejei tanto como no 1º golo; fiquei numa espécie de êxtase e a preparar-me para a previsível reacção benfiquista, usando as armas de que dispunha: a garganta para gritar Belém, as mãos para aplaudir ou agitar o pano azul.

No quarto de hora que faltava para os 90 minutos, e mais na meia dúzia de descontos, à tentativa esforçada do Benfica, respondeu o Belenenses com uma garra ainda maior. (Declarou M.Peres no final: “O Benfica é um grande clube mas para nos vencer, teria que ser ainda muito maior, maior do que ele próprio!”). Foram 20 minutos em que sofremos, cerrámos os dentes, gritámos, chorámos, reclamámos “está na hora!”, enchemos o estádio de “Belém! Belém! Belém”, até que veio o apito final. Depois, foi a grande festa, linda, sentida no fundo da alma. Um mar grandioso de bandeiras azuis, caravanas automóveis por aqui e por ali, e uma alegria imensa, indizível!

E no meio dessa felicidade eu pensava: e agora? Estavam ali unidos a memória do que tínhamos sido num passado glorioso, e o sonho do que esperávamos voltar a ser!... Aquela vitória era um final ou um (re)começo? Eu oscilava entre a esperança e o receio, sendo que, porém, aquele e os dias seguintes seriam só para me embriagar de alegria! O Belenenses dá-nos poucas alegrias...mas quando dá, só nós, belenenses, sabemos que são incomparáveis e que valeu a pena tudo aquilo por que passámos.

A terminar, permitam-me uma nota pessoal. Nunca esquecerei aquela final por várias razões, entre as quais ressalta esta: foi o dia em que fui com o meu pai ver uma grande vitória do Belenenses, o único troféu que o nosso clube conquistou estando ambos vivos. Ele morreria meses depois, e eu nunca, nunca, nunca, esquecerei o abraço que trocámos na hora daquela vitória! Espero que, ao menos um dia que seja, possa celebrar uma vitória no mínimo tão grande, abraçado ao meu filho!

terça-feira, julho 13, 2004

O ESTÁDIO DO RESTELO – COMO O BELENENSES O MERECE

(Artigo da autoria de Eduardo Torres)

Nos últimos tempos, soube-se de um abaixo-assinado e de notícias na imprensa promovidos por uma Associação de Moradores das freguesias de Santa Maria de Belém e São Francisco Xavier, visando impedir a construção, junto do nosso estádio, de projectos imobiliários do clube em parceria com grupos empresariais.

Esgrime-se como argumentos os danos que pretensamente se infligirão na paisagem urbanística e na qualidade-de-vida-de-uma-das-poucas-zonas-de–Lisboa-com-qualidade. Utiliza-se o epíteto de “negociatas” para mencionar aqueles empreendimentos. E, qual cereja no cimo do bolo, diz-se sem mais nem menos, que o estádio foi oferecido pela Câmara ao Clube de Futebol “Os Belenenses” nos anos 90!!!

Atendendo a isto, é importante pôr alguns pontos nos ii. E preservar a memória, porque às vezes é preciso!

Falemos rapidamente do uso do termo “negociatas”. Entidades que se pretendem sérias, devem ter cuidado na utilização das palavras. Ora, o termo “negociatas” tem um sentido pejorativo, em que, no mínimo, se insinua a prática de factos ilícitos. Se a dita Associação tem conhecimento da prática de quaisquer actos que configurem um ilícito criminal, ou mesmo contra-ordenacional, deve cumprir a sua obrigação cívica de os participarem às entidades competentes para a sua investigação e eventual procedimento penal. Se não conhecem, então seria melhor estarem calados e abster-se do uso de palavras equívocas. Pessoas tão preocupadas com questões (supostamente) tão nobres e importantes, deveriam pensar bem antes de atirar lama para cima de pessoas – individuais ou colectivas.

Quanto à sustentação de que o projecto em causa tira qualidade urbanística, paisagística e de vida à zona do Restelo, e à afirmação de que o Estádio nos foi oferecido pela Câmara nos anos 90, parecem assentar numa ignorância tão colossal que nos revolve as entranhas - e dizemos ignorância porque, a não a ser ignorância outra coisa nos não ocorreria senão má fé, no que não queremos acreditar.

Deste modo, pensamos que devemos aclarar a realidade.

Outros, muito melhor que nós, se podem pronunciar, se já pronunciaram, ou podem ainda pronunciar (se necessário) sobre o cumprimento das Leis e Regulamentos aplicáveis, sobre o enquadramento paisagístico, sobre questões de volumetria, etc. Apenas gostaríamos de acrescentar que é estranho que, pelo menos que tenhamos conhecimento, se não tenham levantado semelhantes protestos contra outros edifícios levantados à volta do Estádio – esses, sim, bastante questionáveis do ponto de vista estético e de enquadramento arquitectónico e paisagístico. Mas, também aqui, não queremos pensar coisa diferente de que na altura a tal Associação de Moradores não estava organizada e/ou os seus elementos motrizes não moravam pelas bandas do Restelo...

Mas, se noutros tempos não moravam na zona do Restelo e/ou, de qualquer forma, pelos vistos, conhecem só uma história completamente parcial e deturpada, fica aqui o esclarecimento:

Quando outros clubes de projecção nacional (inclusive sediados em Lisboa, e provavelmente sem que ninguém se atreva a questiona-los com abaixo-assinados), não se preocupavam muito com tais coisas, o Belenenses investiu seriamente em instalações desportivas na 2ª metade da década de 20, e na década de 30.

Daí resultou, no Estádio das Salésias, mais tarde chamado “José Manuel Soares Pepe” em homenagem ao nosso malogrado jogador e símbolo clubístico, coisas raras ou únicas na época:

- Um estádio relvado (o primeiro em Portugal);
- Um estádio com bancada coberta (o primeiro em Portugal);
- Um campo de treinos além do campo principal (julgamos que também o primeiro no nosso país);
- Um ginásio e outros espaços para as modalidades amadoras, na altura chamadas “modalidades pobres”.

Porque, na tal Associação, e nas cabeças de certos jornalistas que da história só conhecem as últimas semanas, pode surgir a ideia que, desse esforço, só beneficiou o Belenenses, lembramos que, durante anos, esse mesmo Estádio das Salésias permitiu à selecção nacional jogar num estádio com apresentação digna e com relvado – o que era o único a propiciar em Portugal. Quem sabe isto lhes diga alguma coisa, agora que se tornou colunável ir apoiar a selecção nacional... com trajes e pinturas a rigor para aparecer na televisão, nas revistas e nos jornais, depois de deixarem os gregos a jogar em casa, apesar de só ocuparem 1/4 do estádio!

O Belenenses gastou nessas instalações o que poderia ter gasto – e outros gastaram - em jogadores para reforçar as suas equipas.

No entanto, no fim da década de 40, o clube foi intimado a deixar as Salésias, que iriam ser sacrificadas a uma urbanização. Que, curiosamente, nunca chegou sequer a ser iniciada.

Contrariamente a outros clubes, de Lisboa e não só, que receberam dinheiros públicos pelos terrenos que deixaram vagos, com instalações a anos-luz das Salésias, além de ainda lhes serem cedidos outros terrenos para a construção, o Belenenses não recebeu nada por deixar as Salésias. Apenas foi oferecido um terreno vazio (e que terreno e em que estado!), em troca dos terrenos e das instalações magníficas que teve de abandonar. O que, meus senhores, é bem diferente daquilo de que beneficiaram outros clubes... clubes que, mais tarde, receberam ainda mais terrenos quase ao preço da chuva e os venderam à mesma entidade pública por cerca de dez vezes o valor de origem!

Sendo obrigado a deixar as Salésias, o Belenenses partiu, de mãos a abanar, para um novo e colossal esforço: a construção de um novo estádio e restantes instalações, agora na zona do Restelo.

Mas o que era então o Restelo, hoje um “local raro de qualidade urbanística e de vida, etc”? Vamos dar a palavra a quem viveu os factos. No caso, a Acácio Rosa. Para quem só conheça o que a Associação conhece, e que parece ser muito pouco, convém dizer que Acácio Rosa não foi “apenas” presidente, seccionista, praticante, treinador e tudo o que é possível ser no ”nosso” Belenenses. Foi, por exemplo, o primeiro seleccionador nacional de andebol; desempenhou diversas funções dirigentes em federações de diferentes modalidades e em organismos oficiais; recebeu condecorações dos governos português e francês. Portanto não era nenhum louco fanático do Belenenses.

Descrevendo uma reunião na Câmara há 55 anos atrás, em que esteve presente como dirigente do clube, escreveu ele: “Apontaram-nos em Belém uma mancha toda a negro na planta da cidade de Lisboa, uma pedreira a que a Câmara não sabia que destino dar”.

Assim, o Belenenses foi transformar a pedreira e o sítio desolado que era o Restelo; foi abrir caminho à sua evolução para o belo espaço urbanístico que é hoje, e de que beneficiam os que, não obstante, no seu autocentramento egoísta, não se importam de pôr o clube em cheque; foi permitir que terrenos nas zonas adjacentes fossem notados, fossem valorizados, fossem, enfim, constituir zonas consideradas privilegiadas, permitindo à Câmara realizar negócios extremamente lucrativos com a sua venda.

E, já agora, até por comparação com outros estádios construídos, pela mesma altura, por outros clubes de Lisboa, arquitectonicamente desinteressantes e monótonos (para não dizer “feios”), o Belenenses construiu o seu estádio de acordo com elevados e magníficos padrões estéticos, inclusivamente no seu enquadramento, os quais lhe conferem uma beleza única – uma autêntica jóia! Em recentes melhoramentos, manteve os mesmos altos padrões. De modo que o Belenenses deveria ser um exemplo a apontar, em vez de um alvo a atingir. Sobretudo por aqueles que lhe devem o facto de existir a tal zona “de grande qualidade” – que, outrora, foi uma pedreira, uma mancha negra, algo a que não se sabia o que fazer!

Mas, para esse esforço de construir o Restelo, mobilizou e exauriu o Belenenses todos os seus recursos, apesar da dedicação de tantos e tantos sócios. E isto, repetimos, depois de notificado para abandonar, de mãos vazias, tudo quanto de excelente e pioneiro já construíra nas Salésias, e sem apoios estatais ou autárquicos, como depois se generalizaria. E para que não pareça que estamos a inventar, cabe aqui citar palavras do Ministro das Obras Públicas, aquando da inauguração do Estádio do Restelo, em 1956: “Será oportuno lembrar que se trata, não da primeira mas, sim, da segunda grande realização do Belenenses em matéria de instalações desportivas. A primeira foi a do velho campo das Salésias (...) a sua construção fez furor na época e representou, sem dúvida, um enorme esforço, pois foi executada quando o Estado ainda não concedia os valiosos subsídios que mais tarde veio a atribuir a realizações dessa natureza”.

Devido a todos os meios que mobilizara para construir sucessivas instalações, que além do mais, permitem anualmente a prática desportiva a milhares de jovens, ficou o Belenenses não só obstaculizado para competir com as mesmas armas com os seus rivais, nomeadamente os outros dois maiores clubes de Lisboa, como progressivamente endividado, em especial para com a Câmara.

Não podendo usar os expedientes e pressões que actualmente outros clubes usam para não pagar as suas dívidas, teve o Belenenses que acordar com a Câmara o “resgate” do estádio. Ou seja, vítima de uma exigência draconiana sem paralelo no desporto português, ficou sem a propriedade do estádio que com tanto esforço construíra. E, durante oito anos, de 1961 a 1969, tinha que pagar quantias astronómicas para o poder utilizar. E, cúmulo das humilhações e desventuras por que teve de passar, viu os seus troféus despejados, encaixotados na rua, tratados com desprezo como se fossem as armas de um vilão – e não os signos visíveis de um esforço e de uma dedicação dignos, honrados e gloriosos de gerações de belenenses!

Ergueu-se mais uma vez a alma do “belém” – e, mais uma vez, o clube resistiu. Como tem sabido resistir desde a sua fundação, logo contrariada e apedrejada... Assim, em 1967, a Junta Directiva do Clube, tendo à sua cabeça o Dr. Gouveia da Veiga, o Dr. Coelho da Fonseca e Acácio Rosa, entre muitas outras batalhas, iniciou a luta para reaver o estádio.

Veio a conseguir, enfim, a concessão do direito de superfície, depois de uma mobilização por todo o mundo onde havia portugueses. Foram dezenas e dezenas e dezenas de milhares de assinaturas a reclamarem a devolução do estádio ao Belenenses. Só no Brasil, foram mais de 50.000! Nada, portanto, com que o abaixo-assinado da tal Comissão de Moradores se possa comparar.

Ainda assim, continuou o Belenenses a pagar uma espécie de renda à Câmara, pelo tal direito de superfície.

Até que, finalmente, no início dos anos 90, depois de lutas infindáveis, depois de um imenso tributo pago, depois de ver outros clubes lisboetas a usufruir de mordomias de que nunca beneficiámos – e mesmo assim, a protestarem! –, ficou o Belenenses novamente proprietário do seu estádio. Que enorme preço teve que pagar - um custo de que ainda não nos recuperámos!

Pelo meio, teve o clube que resistir a outros assédios às suas instalações, que fazer face a outras frentes de batalha. Em 1977, construiu o seu pavilhão gimnodesportivo. Ainda se celebrava a inauguração, só quatro escassíssimos dias tinham passado, e já a Câmara – que, entretanto, descobrira a existência, perto do local, de uma capelinha de que há muito se esquecera e de que nunca cuidara - ameaçava derrubar o pavilhão, com as suas bulldozers! Durante dois anos, mais uma vez o clube teve que lutar com coragem, ânimo e determinação, destacando-se nessa luta, o actual Presidente, Dr. Sequeira Nunes.

Por tudo isto, só podemos concluir dizendo à tal Associação de Moradores: deixem-nos em paz, deixem o Belenenses respirar e ter as suas fontes de receita, como outros clubes!

Ou por palavras diferentes: não nos “chateiem” e cuidem antes de fazer face à prostituição que grassa em zonas do Restelo – isso sim, algo que não deveria existir! Ou, então, vão pregar para outras freguesias!

Viva o Belenenses!

segunda-feira, julho 12, 2004

Nova entrevista de Barros Rodrigues

Depois da entrevista de ontem do novo Administrador da SAD azul ao jornal Record, surge hoje nova entrevista, desta feita ao jornal A Bola. Penso que há algumas considerações interessantes, correcções relativamente à entrevista de ontem e outras considerações com que concordo menos.

Gostei de ver bem definidas as atribuições de Rui Casaca e Nélson Soares, mas estranho a falta de referência a Godinho. Algo que muito me agradou foi a decisão de estabelecer uma rede de observadores quer a nível interno, quer externo. O que é assustador é ainda não termos uma estrutura dessas, até pelos reduzidos custos que implica. Mas devo dizer, com sinceridade, que gostei muito de ouvir que se pretende também implementar uma rede de observadores no Brasil. Há, pelo menos, visão estratégica.

Relativamente áquilo com que não concordo, de todo em todo, está a afirmação do jornalista, que aponta Barros Rodrigues como um dos dinamizadores do Marketing do nosso clube. Ora, como costumamos dizer aqui nos Blogs, qual Marketing??? E também continuo a não concordar com a defesa de uma administração amadora, acho que só tinhamos a ganhar investindo em gestores profissionais e a tempo inteiro, capazes de se dedicarem inteiramente ao clube sem prejuízo da sua vida pessoal e profissional.

Mas penso que a última frase é a mais conseguida e a que inspira mais confiança, pois Barros Rodrigues tem a perfeita noção que o Belenenses está preparado conjunturalmente para um novo ciclo, que será um ciclo desportivo. Vamos a isso.

domingo, julho 11, 2004

Plantel 2004-05: Resumo

Declarações de Barros Rodrigues ao Record

Declarações do novo administrador da SAD azul, Barros Rodrigues, ao jornal Record de hoje:

"Numa empresa, os objectivos da gestão são os resultados financeiros, enquanto no futebol são os resultados desportivos. No entanto, em termos de uma empresa e de uma SAD, a gestão é muito importante. Estamos a trabalhar no sentido de reduzir os custos e aumentar os proveitos. O planeamento a médio prazo está a ser feito pela SAD, que já está a preparar a equipa de 2005/06."

Bela frase, cheia de vento. No fundo, umas dezenas de palavras que nada dizem, na medida em que é uma declaração cheia de lugares comuns e cuja parte final me parece, claramente, irreal. Estamos a preparar a época 2005/06??? Planeamento a médio prazo??? Com o Eliseu, o Ruben Amorim ou o Rolando com contrato por um ano??? Com 90% dos jogadores a acabarem contrato para o ano??? Sem conseguir contratar o "caixote" para o ataque que o Carvalhal está farto de pedir para esta época???

Não nos atirem areia para os olhos! Ninguém pede que estejam hoje a trabalhar para a época 2005/06. Mas em Dezembro sim! E nessa altura é que quero saber se estão mesmo a trabalhar na época 2005/06. Hoje quero é que trabalhem na época 2004/05, contratem um trinco, um médio de ataque e um ponta-de-lança. Ah, e decidam se os putos vão ficar mais um ano a ver os outros jogar, e se portanto não será melhor emprestá-los.

sábado, julho 10, 2004

A suposta contratação de Lourenço

Luís Lourenço, jogador do Sporting, é um jogador que admiro e por quem tenho um carinho especial, por um motivo que muitos já conhecem, uma vez que ao tempo em que eu jogava nas camadas jovens do Atlético defrontei o SCP duas vezes, e das duas vezes destacou-se um miúdo chama Luís Lourenço, que só na Tapadinha nos marcou 9 golos (para um resultado de 0-17, o que até foi dos resultados menos dilatados conseguidos pelos miudos so SCP, pois não ultrapassou a barreira dos 20, que era o habitual). Para além de Lourenço, o SCP tinha uma equipa completíssima, que jogava um futebol adulto e entusiasmante. Relembrei sempre o Lourenço, pois foi a correr atrás dele, quando se aprestava para marcar mais um golo, que apareci no Jornal do Sporting.

Fui acompanhando a sua carreira e vi que sempre foi um goleador ao longo dos escalões de formação. Chegado a sénior, na equipa B, lamenta a falta de oportunidades e vai tentar o Bristol City, onde não é muito feliz, apesar de ter marcado alguns golos em meia-dúzia de jogos. Na época seguinte, de novo no Sporting B, pede para saír pois não considera motivante jogar na 2ª B, e integra a equipa do Oldham Athletic, da Division 1 Inglesa. Fica no plantel até fim de Novembro, quando o Sporting requisita o seu regresso, e para além de alguns golos em poucos jogos, ficou na retina aquele que foi considerado o golo do mês na Grã-Bretanha, um pontapé-de-bicicleta de fora da área, que diz quem viu foi um golo inacreditável.

Volto o ano passado ao Sporting para lutar por um lugar, e durante as primeiras 3/4 jornadas o SCP foi o Lourenço e mais 10. Jovem, irreverente e com "pouco calo", acabou com a sua época num jogo em que, numa situação de 2 para 1, optou pelo remate em vez de assistir o companheiro, sozinho, a seu lado, falhando. Claro que o melhor "correctivo" encontrado pelo treinador foi tirá-lo das convocatórias! O SCP ressentiu-se, e o Lourenço também, sendo que até ao fim da época, e por via da contratação de Liedson, as oportunidades diminuiram. Ainda assim, foi um jogador que ficou na retina dos espectadores de futebol.

Surge, no dia de hoje, como praticamente garantido no Belenenses, apesar de um assédio de última hora do Boavista. Após me verem a elogiar tanto o rapaz, dirão: ele é totalmente a favor da contratação. Mas não, sou terminantemente contra!

Lourenço é um avançado móvel, rápido, lutador, sem grande instinto goleador, sem jogo de cabeça, que pode jogar na frente ou descaído nas pontas, com um bom remate e boa capacidade de drible... ora bem, já lá temos 2 iguaizinhos, o Antchouet e o Rodolfo Lima. E ando a ouvir há um mês que o que precisamos é um avançado alto e possante, forte no jogo aéreo, para jogar ao lado do avançado móvel. Em suma, que faça no Belenenses o que Detinho e Antchouet faziam no Leixões. Temos o Ceará, mas por um qualquer mistério insondável a "bancada" não gosta do homem, o clube já disse que não o quer, mas parece que vamos ter de ficar com ele, pois não lhe arranjamos colocação. E ainda bem, digo eu, porque o Ceará parece-me um jogador com capacidade para ser o "tal" avançado corpulento. Na época passada praticamente não teve oportunidades, tapado por Hugo Henrique, e daí não perceber porque é que ninguém gosta do homem. Vi o jogo em Alverca e ele, na 1ª parte, fez mais pelo Belenenses que muitos ao longo da época toda.

Agora, a cereja no topo do bolo, seria ir buscar o Jorginho e ficarmos com 4 porta-chaves, com as mesmíssimas características, na frente: Antchouet, Rodolfo Lima, Lourenço e Jorginho. Jorginho tem "muita imprensa", mas não é o melhor atacante da equipa Sadina. Os melhores atacantes da equipa Sadina (um é já muito bom, o outro uma grande promessa do futebol português) chamam-se Zé. Mas não lhes dão grande atenção, só o Jorginho é que interessa aos grandes...

Em suma, sou contra a vinda de Lourenço porque:
- é mais um com as mesmas características dos que já temos, talvez melhor, mas igual
- se jogar encostado à esquerda estará a "tapar" o crescimento do "nosso" Eliseu
- mais um "anão" do Restelo, numa equipa que conta já com Andersson, Marco Paulo, Brasília, Eliseu, Amaral, Sousa, Antchouet, Mangiarrati, Rodolfo Lima, Neca, etc, etc... não se esqueçam que uma das grandes pechas da equipa, na época passada, foi o jogo aéreo.