quinta-feira, agosto 12, 2004

Valeu pela primeira "meia-hora"


Depois de um dia chuvoso, a fazer temer o pior cenário metereológico para a hora do jogo, o fim de tarde do Restelo ofereceu a quem se deslocou ao estádio uma temperatura agradável, temperada pela brisa própria daquele alto, com vista sobre o Tejo e a zona histórica de Belém. Pena foi que a massa associativa e adepta do Belém não tivesse correspondido e as bancadas estivessem muito despidas, com não mais de 4000 pessoas.

A festa azul começou bem cedo, com música e muita animação. Assim, dois momentos musicais e uma pequena homenagem aos atletas do Triatlo azul (Bruno Pais, João Cavaleiro e Sara Moniz) precederam a apresentação do plantel.

Durante a apresentação da equipa, jogador a jogador, ficámos a saber que a equipa do Belenenses alinhará com os seguintes números:

1 - Marco Aurélio
2 - Andersson
3 - Mangiarrati
4 - Sandro
5 - Cristiano
6 - Wilson
7 - Marco Paulo
8 - Tuck
9 - Rodolfo Lima
10 - Antchouet
11 - José Pedro
13 - Rolando
14 - Cabral
15 - Jorge Tavares
16 - Sousa
18 - Lourenço
19 - Neca
20 - Brasília
21 - Ruben Amorim
22 - Pedro Alves
23 - Amaral
24 - Fábio
25 - Rafael
26 - Pelé
27 - Eliseu
28 - Gonçalo Brandão

30 - Juninho Petrolina


Foi ainda apresentada a equipa técnica, que será composto (como já era conhecido) por Joaquim Murça (treinador de Guarda-Redes), Rifa (Adjunto), Professor Miguel Cardoso (Preparador Físico) e Professor Carlos Carvalhal (Treinador).

O 11 inicial do Belenenses foi constituído por Marco Aurélio, Andersson, Cristiano, Marco Paulo, Antchouet, Zé Pedro, Rolando, Amaral, Pelé, Juninho Petrolina e Rodolfo Lima. O Celta de Vigo alinhou com Pinto, Méndez, Yago, Israel, Giovanella (antigo jogador do Belenenses), Angel, Capucho, Gustavo Lopez, Iandro, Jonathn e Edu. O árbitro da partida foi Duarte Gomes.

A primeira parte começa com total pressão azul sobre a linha defensiva galega. A equipa do Belenenses iniciou o jogo com velocidade e boas combinações de ataque e simulações que por diversas vezes deixaram jogadores azuis em boa posição para marcar.

Um bom exemplo disso foi a combinação entre Rodolfo Lima e Antchouet, logo aos 4 minutos, que deixou este segundo isolado frente ao Guarda-Redes do Celta. A dupla de avançados do Belenenses, muito bem apoiada no lado direito por Juninho Petrolina, foi durante a primeira parte uma verdadeira dor de cabeça para os lentos defesas do Celta.

A pressão azul resulta, aos 9 minutos, numa boa jogada de entendimento entre J.Petrolina e Antchouet. O avançado azul ainda consegue introduzir a bola na baliza adversária, mas o golo seria anulado por fora de jogo.

Aos 13 minutos é Marco Paulo quem se destaca, com um belo remate de primeira que merecia melhor sorte. A bola embateu no poste da baliza da equipa de Vigo... Todavia, o golo azul estava cada vez mais próximo, uma vez que o jogo tinha sentido único.

Aos 15 minutos, e depois de uma bela jogada pela direita - mais uma vez entre Petrolina e Antchouet - surge um cruzamento que sobrevoa toda a área e vai parar ao lado esquerdo, onde surge Rodolfo Lima isolado, que com classe e grande calma senta o guardião do Celta e remata colocado no poste mais distante. O Belenenses chegava ao merecido 1-0, e o Estádio comemorava o primeiro golo da temporada "oficial" da equipa azul.

A equipa do Belém continou a pressão, e poderia ter chegado ao 2-0 sem grandes dificuldades, não fosse um excesso de confiança que por momentos pareceu emergir do jogo azul. Petrolina assumiu o controlo da zona central do terreno, saindo com bola controlada de terrenos super-povoados, ou optando por passes colocados para as alas. Um excelente jogador, que faz a diferença no meio campo...

O meio campo funcionava bem, com várias recuperações de bola de Andersson e Marco Paulo. A destuar apenas algumas perdas de bola impossíveis de aceitar por parte de José Pedro, que revelou bons pormenores no ataque, mas dificuldades a defender e a segurar a bola. Uma situação a trabalhar, sem dúvida.

Apenas aos 25 minutos o Celta rematou com perigo à baliza do Imperador, Marco Aurélio. Muito pouco para uma equipa que, apesar da situação actual (encontra-se a preparar uma época na 2ª divisão espanhola) tem bons jogadores e um nome a defender...

Ainda assim, a partir da meia hora, a equipa galega equilibrou o jogo e empurrou o Belenenses para o seu meio de campo defensivo. O jogo terminaria, em termos de qualidade, já no fim da 1ª parte, quando Gustavo Lopez é expulso com vermelho directo por palavras dirigidas ao árbitro. Estava "estragada" a festa no relvado.

As equipas recolheram aos balneários perante um resultado justo (1-0) e ao som da primeira gaffe do "speaker" do jogo, que anunciava um resultado parcial de 1-1...

A segunda parte começou com poucas substituições, e com o Belenenses a apresentar o equipamente alternativo (camisa e calções brancos, com meias azuis). Digno de resiste, neste momento da festa, foi a espectacular coreografia preparada pela Fúria Azul. A claque mais antiga do clube apresentou uma faixa de muitos metros de tamanho, com um excerto do hino do Belenenses, e com um enorme "Força Belém" ao centro. Um momento para recordar!

Sobre o "jogo jogado" pouco há a dizer, excepto talvez que tirando um ou outro momento, a partida perdeu velocidade, qualidade e emoção. Na equipa azul foram entrando jogadores mais jovens e menos utilizados, como Ruben Amorim, Mangiarrati, Neca, Eliseu e Tuck. A ovação da noite estava todavia guardada para a substituição de Marco Aurélio (que envergava a braçadeira de capitão) por Pedro Alvez, promissor jogador da escola azul, campeão da Europa de sub-21.

Pedro Alves esteve aliás em bom destaque, ao segurar o resultado aos 39 minutos, quando saiu da baliza para travar um contra-ataque do Celta.

Destaque ainda pela positiva para o carinho com que a massa associativa azul aplaudiu Giovanella quando este foi substituído.

O jogo terminou com um 1-0, que soube a pouco, mas que reflecte de alguma forma o jogo: dominio azul na 1ª parte, e jogo fraco na segunda, a justificar o nulo de golos nesse período.

Duas notas para finalizar esta crónica, que já vai longa: a primeira para a seguda gaffe do "speaker", que pediu no fim do jogo uma salva de palmas para a "nossa equipa do... Benfica". Inacreditável. A segunda para o espectáculo de fogo-de-artifício que não chegou a existir... Eu nem gosto desse tipo de espectáculo, mas quem paga o seu bilhete espera ver cumprido o programa anunciado. E um clube com gestão empresarial, e que deve ter como objectivo atrair cada vez mais gente ao Restelo, não pode deixar cair elementos do programa da festa. Ainda para mais quando a alternativa multimédia se apresentou fraca. Fica a nota, não como crítica mas como observação e opinião pessoal...

Valeu a pena voltar ao Restelo. Rever amigos. Sentir o cheiro do Estádio e... cantar a viva-força o Hino do Belém!

quarta-feira, agosto 11, 2004

Apreciação Individual dos Jogadores


Autoria de Eduardo Torres.
Onze Inicial
Marco Aurélio – Hesitámos entre o 3 e o 4. Na verdade, não teve muito que fazer. Mas tudo o que fez, impecável foi. E é uma referência de toda a organização defensiva da equipa (4)
Amaral – Uma das grandes aquisições da época. Muito bem a defender, surgindo até algumas vezes no centro a resolver um ou outro problema. A atacar: dinâmica, inteligência de jogo, técnica em velocidade. Fez o passe para o golo de R.Lima , na sequência de trabalho anterior de Juninho Petrolina e Zé Pedro. Uma jogada toda ela excelente (4)
Rolando – Ainda acusa alguma inexperiência mas tem “pinta” de bom jogador. Grande potencial, bom sentido de colocação, alto e a jogar com a cabeça levantada sempre que recupera a bola (3)
Pélé – Excelente exibição. É quase impossível apontar-lhe alguma falha significativa. Além do mais, parece menos faltoso do que o ano passado (4)
Cristiano – Discreto, tanto a defender como a atacar. Parece sem ritmo, talvez ainda a recuperar de lesão. Não deu segurança ao lado esquerdo. O posto de lateral esquerdo é, possivelmente, uma das questões em aberto. (2)
Andersson – Não é um jogador empolgante. Caracteriza-se pela pendularidade. E, assim, esteve bem sem deslumbrar. De qualquer modo, está muitas vezes no caminho da bola. (3)
Marco Paulo – Afinal, parece que há mais um reforço. Totalmente diferente, para melhor, do Marco Paulo da época passada. Um bom remate ao poste, e exclentes combinações com Juninho Petrolina, Zé Pedro e Amaral. (4)
Juninho Petrolina – Em melhor condição física do que esperávamos, baixou contudo na 2ª parte. No 1º tempo, esteve muitíssimo bem. Excelente técnica, bola colada aos pés, visão de jogo, dá clareza ao jogo do Belenenses. Gostámos. Talvez com um sinal menos mas, de qualquer modo, a nota é... (4)
Zé Pedro – Um jogador difícil de catalogar e por isso, possivelmente, um quebra-cabeças táctico para os adversários. Tanto joga à direita, como ao meio, como à esquerda; não é um tecnicista brilhante, nem um carregador de pianos nato, nem um médio ala veloz de grande nível. Mas tem algo disso tudo, imprime muito dinamismo ao meio campo e tem ainda muita margem de progresso. Com um mais à frente...(3)
Antchouet – Esteve muito lutador, e é uma constante ameaça. Pena não ter marcado num lance em que se desmarcou muito bem, com a visão suficiente para evitar o fora de jogo, dominou muito bem a bola mas...atirou contra o Guarda-redes. Se concretizasse, a nota justa seria 4, com sinal mais. Assim, fica um sinal mais mas á frente de um...(3)
Rodolfo Lima – Muito veloz e lutador, desmarca-se bem e propicia entradas de outros jogadores. Voltou a fazer-nos lembrar Chiquinho. Vimo-lo uma ou duas vezes a ajudar em tarefas defensivas, e bem. O golo foi-lhe oferecido de bandeja mas... não falhou e estava “lá”. (4)

Jogadores que entraram a substituir
Pedro Alves – Só teve uma intervenção mas evitou brilhantemente um golo eminente. Por isso...(4)
Cabral – Não brilhou mas também não comprometeu (2)
Mangiarrati – Também não brilhou mas esteve melhor que em jogo anterior que vimos. A subir de produção... esperemos (2)
Gonçalo Brandão – Com pouco mais de 10 minutos em campo, no nosso pior período, não pôde ter um registo apreciável. Mas merece o nosso apoio e confiança. (1)
Tuck – Não sabe jogar mal. Filtra o jogo com maestria. Um senhor! (3)
Neca – Não esteve feliz. Confiemos em melhores dias (1)
Brasília – Esforçado, lutador, as suas jogadas nunca lograram grande sequência. (2)
Eliseu – Chegou-lhe pouco jogo (o tal mau período da equipa) mas lutou sempre e ainda assinou um bom remate de longe. Tem muito futebol para mostrar! (2)
Ruben Amorim – Também ele tem muito futebol, inteligência de jogo e talento. Falta-lhe maior condição física, mais ritmo e continuidade. Ontem, o tipo de jogo que se instalou na 2ª parte não lhe permitiu brilhar, apesar de se ter esforçado.

Jogo de apresentação


O jogo de apresentação contra o Celta acabou com o resultado de 1 - 0 favorável ao Belenenses. O golo foi apontado pelo Rodolfo Lima.
A crónica do jogo segue dentro de momentos.

A Década de 80 (cont.) - Parte IV: E Voltam as Desilusões... - Secção IV: O Naufrágio


Vencedora nas eleições realizadas em Maio de 1990, e empossada em 4 de Junho, a Direcção inicialmente liderada pelo Major Ferreira Matos (digo “inicialmente”, pois a curto trecho outras pessoas assumiram a liderança efectiva) demonstrou logo ao fim de poucos dias no que ia dar aquela mistura de pseudo-modernismo e de contentinho-da-Silva a que nos referimos. E fê-lo com a altivez e o auto-convencimento de que “agora é que se está a ir bem!” a que já nos acostumaram todos aqueles que mais enterraram o clube. De facto, a tal vertente “Espectáculo” anunciada foi cabalmente cumprida – mas de que maneira!

Vamos lembrar apenas alguns episódio, novamente sob a forma de tópicos, pois, de outro modo, nunca acabaríamos de desfiar o rosário.

* Uma vez que o Farense nos tinha eliminado da Taça, e o seu treinador era Paco Fortes, foi este rapidamente (e com o seu quê de atitude masoquista…) elevado à condição de semi-deus. Ele e só ele é que podia fazer e acontecer, ele e só ele é que podia ser a nossa solução, ele e só ele é que era ambicioso, jovem, conhecedor de como se puxava pelos jogadores, etc.

Assim, um “belo dia”, numa conferência de imprensa, o Major Ferreira Matos e outros dirigentes anunciam que Paco Fortes ia ser o próximo treinador do Belenenses.

Entretanto, o treinador com contrato em plena vigência, Moisés de Andrade, é apanhado de surpresa no Brasil, onde tinha ido passar férias, e sabe via rádio, ouvindo um excerto da tal conferência de imprensa, que o treinador ia ser outro!

E, por sua vez, Paço Fortes afirma peremptoriamente que não tinha nenhum acordo com o Belenenses, que só tinham falado e que ainda estava a pensar. Um ou dois dias depois, anuncia que prefere continuar no Farense! E o Belenenses, naturalmente, passou a ser objecto de gozo!

* Sem nenhuma outra solução na manga, passam-se semanas sem treinador definido. O ex-treinador Moisés Andrade chega a Lisboa para acertar contas, o seu despedimento é confirmado e, entretanto, passados dias, os dirigentes vêm afirmar que esperam que ele os ajude a preparar a nova época, enquanto se não contrata novo treinador!

* Na mesma altura, o clube vive cenas ao melhor estilo surrealista. O Presidente preocupa-se apenas em reservar no Estádio uma sala “onde os jovens possam iniciar-se a cantar Fado ou Rock”. Era, ainda, a tal vertente espectáculo! Para um clube recreativo, estaria muito bem. Agora para um clube (perdão, para uma empresa; na altura tinha que se dizer “empresa” em vez de “clube”: era a palavra de passe para os grandes iluminados de então!) como o Belenenses…

* Começam, entretanto, ainda sem treinador definido, a ser anunciadas as dispensas, contratações e… empréstimos para a próxima época futebolística. Sai o utilíssimo central Oliveira, que equilibrara a nossa defesa a meio da época anterior (porque, como repetiam em todas as ocasiões os novos dirigentes, “arranja-se muito melhor e muito mais barato”), o avançado Jorge Silva e o defesa esquerdo Grosso. Entram o defesa esquerdo Nito (jogador útil, embora longe de justificar o alarido que Delgado, na altura, fez com ele: “Ficarei muito surpreendido se o Nito dentro de dois ou três anos não for titular da selecção”) e o zairense Kobla, que, é certo, nos fez pensar em Mapuata, quando foi anunciado. Só que havia duas diferenças: o Mapuata era avançado centro e Kobla era médio-extremo esquerdo; Mapuata tinha vinte e poucos anos, Kobla, pelo aspecto, teria os mesmos e mais outros tantos! De facto, Kobla, anunciado oficialmente como tendo 27 anos, tinha aspecto de uns 47, e depois de uma corrida de 20 metros, precisava de descansar quase 20 minutos….

Bom, mas ainda vieram mais três! Do F.C.Porto, concomitantemente com o restabelecimento de relações, vieram dois a título de empréstimo (escuso de repetir aqui o que penso de empréstimos vindos de outros clubes portugueses): Morato e Raudnei. Do primeiro, que tinha sido internacional, devo dizer, com justiça, que vestiu com muito respeito a nossa camisola, sendo até um dos melhores jogadores dessa infeliz época. Mas, justamente por isso, no fim da época, o FCP quis que ele regressasse à base. Raudnei era apresentado como o super-reforço. Havia sido contratado pelo Porto dois anos antes, e tinha sido emprestado ao Dep. Corunha, onde quase não tinha jogado (apesar de, na altura, aquele clube espanhol estar, se não me engano, na 2ª Divisão). Dizia-se que ia explodir no Belenenses! Depois de um ou outro golo nos jogos de preparação, marcou, durante o campeonato inteiro (nesse ano, com 38 jornadas) um total de 2 (dois) golos, um dos quais à 2ª jornada (marcando apenas um durante as restantes 36!).… E, todavia, sabe-se lá porquê, esteve muitas vezes a tirar o lugar a jogadores como o utilíssimo Chico Faria, um dos grandes heróisda vitória na Taça e melhor marcador das 2 épocas anteriores (e numa delas, com uma lesão que o impediu várias jornadas) ou Chiquinho (o tal que não podia sair, sendo o pretexto para a já referida manobra eleitoralista, da tal lista – a vencedora – que não fazia promessas nem cedia a eleitoralismos..).

Do Benfica, veio Chalana. Porquê? Porquê? Porquê? Não cabe nenhuma dúvida que Chalana foi, num determinado momento, um jogador excepcional; mas era evidente que estava acabado. Nas últimas épocas jogara meia dúzia de jogos e, mesmo esses, raramente actuara os 90 minutos inteiros. Para o seu lugar, tínhamos Gonçalves, que estivera em plano excepcional na época anterior e que também foi parcialmente “tapado” pelo ex-benfiquista. Pior ainda: nas mesmas condições (fim de carreira) esteve quase para vir também o Diamantino (o tal que após a final da Taça tecera deselegantes considerações sobre o nosso clube; declarações que, em má-criação, só foram ultrapassadas pelas de Pacheco que, porém – como a memória é curta, ou como ela é facilmente espezinhada ! – haveria de vir a representar o Belenenses no tempo de Matias / Alves).

Nunca me esquecerei do que li num jornal da época: “Os dirigentes azuis, tal como aconteceu com Chalana, já fizeram saber que não gostariam nada de ver Diamantino a treinar atrás das balizas”. Incrível! O Belenenses ao serviço de jogadores! Incrível: um clube com a história fantástica de 70 anos (na altura) a ser chamado (como era previsível) “o clube de Chalana”…; títulos nos jornais do género “Chalana voltou a perder”…; e, apesar disso, gente na bancada dos sócios, cada vez que ele era substituído, a aplaudi-lo em delírio (alguns, como nunca os vi fazer, em anos e anos, a briosos jogadores do clube)!

* Esses aplausos delirantes a Chalana, é um dos factos dessa época que não consigo esquecer. Mas, infelizmente, há outros:

- Uma senhora, ainda jovem, que durante um jogo em que o Beleneneses se encontrava a perder e, assim, a deslizar ainda mais para a descida de divisão, estava em êxtase por, na rádio, ouvir que o Benfica havia chegado à vantagem num outro jogo (e, assim, era capaz de ganhar o campeonato ao Porto, etc…);
- A mesma senhora, que, para cúmulo, dizia que já o seu avô fora do Belenenses, num outro jogo que igualmente perdemos, passou metade do tempo a falar das guerras Benfica-Porto, e a repetir que estava desejosa que o (empresário) Manuel Barbosa despejasse o saco contra Pinto da Costa (o que acho que não fez, mas tanto se me dá). Digo metade do tempo, porque a certa altura saí dali para outra parte do Estádio;
- Na antepenúltima jornada, sabendo-se que precisávamos de ganhar esse e os restantes jogos para nos salvarmos da descida, e estando nós a perder por 1-0 (com o União da Madeira), ver um grupo de sócios completamente alheios ao que se estava a decidir e, a 2/3 minutos do fim, perante o nosso desespero, estarem entretidíssimos porque “o Belém talvez ainda chegue ao empate !!!”
- Um senhor que, no penúltimo jogo do campeonato, numa das bancadas dos sócios, estava furioso porque com a derrota do V.Setúbal contra nós, eles (“uma equipa do Sul”) também podiam descer; portanto, o que era bom era o Belenenses perder!
- A inqualificável tentativa de expulsar Acácio Rosa de sócio, do que falarei adiante.

* Finalmente, encontrou-se um treinador: Henry Depireux, que assim voltava ao clube. Ele rapidamente avisou que, com aquele plantel, não podíamos ir longe; porém, os dirigentes, em pleno autismo, anunciavam as suas previsões: “2º lugar, no mínimo” (sic). Ficámos em 19º entre 20 concorrentes…

* Para o Campeonato, depois de uma derrota por 2-0 em Braga, obtivemos uma vitória por 2-0 sobre o Chaves. Seguiram-se 7 derrotas e um empate. Resultado: à 11ª jornada, em 22 pontos possíveis, tínhamos 3! Entretanto, já saíra Depireux e viera o brasileiro António Lopes.

* Em Novembro de 1990, vários dos dirigentes, reunidos em casa do Vice-Presidente José António Matias, resolveram afastar o líder (nominal) da Direcção Major Ferreira de Matos. Segundo o Presidente substituto Joaquim Cabrita, “o major Ferreira de Matos continua a desestabilizar o clube, porque ainda não recuperou do esgotamento cerebral que sofreu em Junho passado. Esta direcção sente-se traída pelo presidente, porque na altura das eleições prometeu disponibilizar 150 mil contos até meio milhão, mas essas expectativas saíram defraudadas” (!!!).

* Pelo meio (início de Outubro), houve eleições para o Conselho Fiscal, que se havia demitido. A lista liderada por Luís Santos (sim, esse mesmo!) venceu a que era encabeçada por Acácio Rosa! Parece que ainda não se tinha aprendido! Dissera Luís Santos: “Esta Direcção…deixem-na trabalhar em paz!”. Dissera Acácio Rosa: “Prendam-me se não houver desvios de dinheiro”; “O Cabrita e os acompanhantes vão todos para o olho da rua!”. De resto, já havia a Direcção instaurado um processo disciplinar a Acácio Rosa - “Um velho gagá”, dizia-se. Incrível! Um processo disciplinar a um homem com quase 80 anos, com quase 65 anos de sócio, que fora tudo no clube - Presidente, atleta, seccionista, historiador, introdutor de modalidades (andebol e voleibol), membro de Juntas Directivas em horas dramáticas - , condecorado pelo Belenenses com tudo quanto era possível e justo, e ainda por instâncias oficiais portuguesas, pelo Governo Francês! Incrível, sim, e inqualificável: um belenense enorme, inflamado de uma paixão como talvez nunca outra igual venha a existir (veja-se o texto de ontem), por pouco não era expulso de sócio! Onde pode chegar a prepotência, a cegueira – e, também, o seguidismo acéfalo, a pretensão do unanimismo! Acácio Rosa quase expulso de sócio… por erguer a sua voz contra o que se passava no clube!

* Finalmente, os sócios começam a organizar a reacção ao tremendo estado de coisas. Forma-se uma claque vibrante (independentemente de continuar a existir a Fúria Azul) e muitas vezes é praticamente a força desse clamor que empurra a equipa para algumas vitórias (ainda me recordo, comovido do que puxámos pela equipa num jogo contra o E. Amadora, que ganhámos por 2-1). Mas essas vitórias foram insuficientes…continuávamos abaixo da linha de água e todo o clube era varrido por um autêntico tufão… com a nau azul a ir pique…

* Começam os movimentos para convocar uma AG (o próprio Major Ferreira de Matos, impotente face à situação, mas mostrando ser homem de bem, ele próprio também incentiva a ideia). Após algumas manobras dilatórias, essa Assembleia histórica teve lugar em 17 de Dezembro de 1990, com o Pavilhão do Restelo repleto de milhares de sócios. Arrepio-me ainda, só de me lembrar. Era a vida que no Belém ainda restava, a querer vir a superfície. A indignação era tanto, que os membros da Direcção quase não conseguiram falar. Veio então a intervenção do Major Baptista da Silva: traçou um resumo da situação do clube e, encolhendo os ombros, num gesto de interrogação, perguntou: “E Agora?...”. No meio do silêncio que se fez, concluiu ele: “Agora, terá de se entregtr o clube a quem seja capaz de rapidamente recuperar o Belenenses social, económica e desportivamente e preparar novas eleições, porque ninguém que tenha o clube no coração e na inteligência tem o direito de recusar a sua participação, pois essa atitude não seria de comodidade mas de cobardia moral”.

A reacção quase uníssona do Pavilhão facilmente fez prever o que se seguiria. Foi apresentada uma proposta de demissão da Direcção e sua substituição, até novas eleições, por uma Junta Directiva constituída por Baptista da Silva, Agostinho Carolas, Florentino Antunes, Mendes Pinto e Luís Pires.

Colocou-se a proposta à votação: nem se chegaram a contar os votos. Era uma floresta de braços no ar, a manifestar o sim. E logo esses braços, e essas mãos, se uniram para provocar uma trovoada de aplausos, enquanto as vozes se erguiam no velho grito” Belém”! Belém! Belém!” E começou a tocar o hino…”Ostentado o nosso emblema / Consagrado e popular… Para a frente Belenenses / Com a certeza de vencer!”. A esperança renascia, ao menos um pouquinho. Sim, a dignidade fora restaurada!

* A Junta Directiva fez um bom trabalho. Mas, no que toca ao futebol, foi já impossível evitar a descida de divisão. Para substituir António Lopes, foi-se novamente buscar o treinador da época anterior, Moisés de Andrade. Este devolveu um pouco de alegria e elán à equipa mas já era tarde. O nervosismo era muito e, em momentos chave, falhou-se…

* Deve-se, contudo, reconhecer que, da mesma forma como, sinceramente, o ano passado o Belenenses merecia ter descido de divisão, naquela época não tinha equipa para descer. Não era um plantel brilhante, o campeonato seria sempre medíocre, além do mais tirou-se todo o brio e orgulho aos jogadores, mas não era equipa para descer. Além de toda a situação vivida no clube, teve azar em momentos decisivos – lembro-me, por exemplo, do golo sofrido em Alvalade no último minuto; sofreu arbitragens inqualificáveis, sem exagero, num quarto dos jogos (para mais…); teve um goal-average bastante equilibrado, sendo até das melhores defesas (ao contrário, no ataque); o campeonato foi estranhíssimo, com um bloco cerrado de uns 15 dos 20 participantes, desde o 5º lugar para baixo. Fizemos 29 pontos. Com 33 alguns ainda desceram, com 36 alguns foram às competições europeias…

* A propósito de arbitragens, relembre-se que foi nesta época que ocorreu o célebre caso Francisco Silva. Este árbitro, na sua carreira, começou por ser claramente tendencioso a favor do Benfica, tendo depois “virado o bico ao prego” a favor do Porto. Até que (como às vezes sucede nestes casos de cata-ventos), caiu em desgraça. Assim, o Presidente do Conselho de Arbitragem, Dr. Lourenço Pinto (sócio do FCP e actualmente advogado do Major V. Loureiro), armou-lhe uma cilada. Num determinado jogo, combinou com um Presidente de um clube (o Penafiel) que este oferecesse 1.000 contos (há 15 anos, tinha outro valor!) para beneficiar aquela equipa em desfavor de outra. O presidente do Penafiel, pouco antes do jogo, assim fez. Chico Silva aceitou, agradeceu e guardou. Alegou, quando confrontado pelo Presidente do C.A. (com as gravações na mão) que tencionava posteriormente denunciar o caso! Agora bem: quem é que ia ser prejudicado? Nem mais nem menos que o Belenenses!!! Podemos pensar que foi um acaso… ou podemos pensar que o Belenenses é a vítima ideal. E se é, porquê? Vale a pena reflectir!

E termina assim a abordagem dos factos da década de 80. Os próximos artigos serão dedicados a extrair reflexões e ilações.

Termina em tristeza, num capítulo fatal da história do clube. Ter descido uma vez fora mau mas…poderia ter ficado como algo que acontece, constituindo entretanto essa chicotada um estímulo para o clube ir retomando o seu lugar. E, na altura da 1ª descida, pura e simplesmente não havia dinheiro. A 2ª descida, essa, foi mais inexplicável e, sobretudo, indesculpável. Um misto de novo riquismo, de chavões de boa gestão e de patetices bacocas e balzaquianas provocou um rombo que, em tão poucos meses, quase nem fazendo de propósito poderia ser pior!

Lembremos que esta nova queda na 2ª Divisão não foi no ano a seguir à vitória na Taça. É preciso desmistificar essa ideia, propalada por jornais, comentadores e até dirigentes. Acho que o objectivo não é inocente: pretende-se que acreditemos que o Belenenses tem de se conformar com a mediana. Diz-se: “Não tinha estrutura para aquilo, logo a seguir foi o desastre…”. É FALSO! Logo a seguir, apesar da falta de ambição, veio um 6º lugar e uma presença nas meias-finais da Taça. Duas épocas depois é que se desceu – e não por falta de “estruturas” mas, sim, devido a uma série incrível de palermices!

Esta descida representou, pois, um triste marco na história do Belenenses: o abdicar definitivo (?) da sua ideia de grandeza e o aceitar-se como clube vulgar, que pode naturalmente andar no sobe-e-desce…

Gostaria de dizer que espero que nunca mais se repita. Mas já repetiu, e com métodos muito semelhantes, na fase José António Matias (que em alguns aspectos, até foi menos disparatada do que a incrível experiência de 90/91).

Será que aprendemos a lição? Receio que não… mas oxalá que sim!


“excerto do Jornal de Candidatura de Ferreira Matos / Cabrita, condenando as promessas…”


“Lista liderada pelo Major Ferreira de Matos nas eleições de 1990”




“O Major Ferreira de Matos e Joaquim Cabrita, em material de propaganda das eleições de 1990”


"Os corpos sociais antes do "cataclismo" de 90/91"




"Material de propaganda da lista derrotada nas eleições de 1990"

Um regresso emocionado ao Restelo

Hoje é dia de festa, no estádio do Restelo. E é dia de festa por muitas e boas razões: a época recomeça oficialmente, no nosso clube, com a apresentação da equipa aos sócios e adeptos; as portas do Restelo voltam a abrir-se, o que se repetirá pelo menos todas as semanas nos próximos meses; voltaremos a reencontrar amigos azuis, sofredores deste grande clube; e sobretudo, porque regressa aquele nervoso miudinho das horas anteriores aos jogos, que tanto prazer me (nos?) dá...

Hoje vou ao Restelo! E levo a família.
Não há nada como um dia de jogo do nosso Belenenses.

terça-feira, agosto 10, 2004

Carvalhal fala ao "24 Horas"

Quando a generalidade dos órgãos de comunicação social desportiva não dão ao Belenenses a importância que o clube na realidade tem, o jornal "24 horas" destinou (inesperadamente, diria eu) as páginas centrais a uma entrevista com o novo técnico do futebol profissional do Clube, Carlos Carvalhal.

A entrevista não nos oferece novidades. Carvalhal volta a falar de ambição, de trabalho e de um futebol vistoso. Assume as deficiências do ano passado - todos as conhecemos - e confessa (aqui sim, talvez haja novidade) que lhe foi pedido ficar entre os 10 primeiros. Não se trata portanto de um objectivo por si definido, mas antes de uma meta que lhe foi pedida. Regista-se.

Depois de ler a entrevista reforcei a minha opinião sobre Carvalhal: tem os pés no chão, é ambicioso q.b. e tem noção de que se encontra num Grande. Não sei se Manuel José e Augusto Inácio alguma vez o perceberam... E tem uma postura de igualdade de tratamento para com todos os jogadores, o que é absolutamente natural, mas nem sempre verificado.

Duas páginas dedicadas ao Belém, num diário de grande tiragem (ainda que de um âmbito jornalistíco diferente daquele a que estamos habituados, no que se refere a desporto). Eis uma lição aos pasquins encarnado (A Bola), verde (Record) e portista (O Jogo), que de forma geral mais não dispensam ao nosso clube que meia dúzia de linhas.

Palavras que foram ditas 7



Na “Bola Magazine” de Setembro de 1988, saiu um texto de Acácio Rosa (aos 76 anos) que, é quanto a mim, uma das mais belas declarações de amor clubístico que já foram escritas. Ei-la aqui reproduzida:

“Falar de Belém, do Belenenses e do desporto encanta-me, embora, por vezes, sinta alguns desencantos; as coisas hoje não são como outrora, quando o símbolo de um clube era amado e sempre respeitado. (…)

Este amor pelo Belenenses tem origem, sobretudo, na minha naturalidade: nasci em Belém. Adoro Belém, penso que é a terra mais bonita do mundo, e eu já viajei bastante (…)

Sinto-me cansado. Valem-me os meus netos, sócios do Belenenses desde que nasceram. Naturalmente, porque sou filho de um presidente do clube e pai de um presidente. O azul corre-nos nas veias.

Vejo o meu Belenenses e penso-o sofisticado. Como os outros clubes. Amo-o da mesma forma mas mantenho na memória o Campo do Pau do Fio e os trabalhos de construção das velhas Salésias, com o Joaquim de Almeida comandando a equipa de obras. Salésias que sempre sonhei pátria de ecletismo porque não posso conceber o Belenenses sem as modalidades amadoras, um clube com a sua grandeza não pode ser só o futebol.

O Belenenses é, para mim, um país dentro da nossa terra. SERVI-O APAIXONADAMENTE E SE ALGUMA VEZ ERREI FOI POR EXCESSO DE AMOR, DE LHE QUERER, DE O DESEJAR GRANDE. Tenho a consciência tranquila e por isso feliz, vivi intensamente o meu clube durante sessenta anos! Hoje, sinto-o também com fervor clubista, mas afastado do centro das decisões.

Dei-me ao Belenenses, mas dele recebi também inesquecíveis alegrias, galardões e amizades. São medalhas que guardo orgulhosamente. Penso, sem sintomas de vaidade, não, não os sinto, que faço parte da mística do Belenenses, DO MEU ‘BELÉM’, SEMPRE CLUBE DIGNO E ENORME ATÉ QUANDO A SORTE DO JOGO LHE é ADVERSA”.

Três notas da nossa parte:

* Duas frases estão em maiúsculas pela mesma razão por eu há partes de músicas que me tocam tanto que, às vezes, tenho de me pôr de pé para as ouvir.

* O Joaquim de Almeida foi um jogador do Belenenses dos anos 20 e 30. Sim, naqueles tempos, os jogadores trabalhavam voluntariamente na construção do estádio.

* O Acácio Rosa guardava orgulhosamente as medalhas com que se reconheceu todos os serviços que prestou ao clube. Enquanto isso, há uns 20 e poucos anos atrás, um jogador profissional galardoado com … (não vou dizer para não ser fácil identificá-lo), disse em local público sobre o que recebera: “Para que é que eu quero esta merda?”. É por isso que eu digo: respeito os jogadores que são bons profissionais e honram a nossa camisola; mas amores à camisola, esses, havia-os noutros tempos. Aplaudo os jogadores do Belenenses só por envergarem a camisola, ou melhor, aplaudo e incentivo o clube através deles. Mas sei que são apenas o dia que passa…

Palavras que foram ditas 6: A Morte de Pepe


Ainda no mesmo artigo que temos vindo a citar, Homero Serpa entrevistou alguns belenenses que tinham conhecido o Pepe, entre eles o Sr. Idalino Cotovio, ao tempo daquele artigo (1988), o sócio nº 160 do clube. Entre outras coisas, declarou o Sr. Cotovio:

“A morte dele? Um horror. Creio que toda a gente que o conhecia chorou esse momento trágico. Ninguém imagina a consternação que caiu sobre o bairro, o Pepe era um menino querido”

“Grande jogador. Uma vez o Belenenses foi jogar a Setúbal e empatou 1-1. O Pepe não foi por estar lesionado (…). Nessa altura havia que desempatar no espaço de 24 horas, e o Pepe não resistiu, foi mesmo jogar e o Belenenses ganhou por 2-0. Foi ele que, mesmo ao pé coxinho, deu alma à equipa, deu-lhe alegria e valor. Tenho 63 anos de associado do Belenenses, e nunca esqueci essa grande jornada”.

“Nunca assisti a um funeral tão imponente e sentido. As pessoas choraram o Pepe como se ele fosse filho de todos quantos o acompanhavam. Já o tinham sepultado num jazigo da Câmara Municipal de Lisboa no Cemitério da Ajuda e ainda havia gente na Rua da Junqueira”.

E terminou o Homero Serpa: “Fomos buscar ao passado uma das horas mais trágicas do desporto – a morte de Pepe, o menino querido de Belém, o jogador invulgar que empolgava as multidões e criava simpatia entre os adversários, mesmo quando dava a vitória ao seu clube ou à selecção nacional. Desapareceu há muito tempo mas a sua imagem e a sua história comovente têm atravessado incólumes as gerações, porque os homens antigos entregam aos novos o testemunho da sua admiração por um moço paupérrimo que nasceu em Belém e morreu aos 23 anos, deixando para a eternidade o misticismo que cria e alimenta as lendas”.

Um clube com a história, as lendas, as tradições, as figuras e as páginas escritas a letras de ouro, como o Belenenses, tem de ser digno da sua grandeza!

segunda-feira, agosto 09, 2004

Palavras necessárias...

Caros amigos,

De tempos a tempos surgem nos comentários do blog discussões mais ou menos acesas. Muitas destas discussões surgem do nada, e compreendem-se em contextos de maior indefinição na vida do clube, de crise desportiva ou de radicalização de posições acerca de um qualquer assunto. Durante algumas dessas discussões, surgem por vezes comentários pouco ponderados e por vezes mesmo descabidos acerca do rumo do Blog ou das suas intenções.

Assim, entendi que aqui deveria colocar o seguinte esclarecimento: o Blog do Belenenses surgiu há alguns meses com um único objectivo – valorizar o clube. Acreditamos que, ao longo destes primeiros meses de existência, o objectivo foi alcançado. Em torno deste e de outros espaços de discussão on-line (Blog CFBelenenses, Blog Azul do Restelo ou mesmo no Livro de Visitas do Portal Oficial) foram-se juntando muitas e muitas pessoas. E de alguma forma todos estes espaços contribuiram para ajudar o Belenenses na difícil caminhada da época passada.

Com actualizações diárias (por vezes várias vezes ao dia), o Blog do Belenenses acompanhou a época do futebol, a brilhante temporada dos Guerreiros, a época das equipas de andebol e rugby, alguns jogos das camadas de formação do futebol, aspectos relacionados com a vida do clube (como aconteceu aquando das obras no complexo desportivo).

São muitos e muitos os textos colocados, os comentários publicados e a “actividade” desenvolvida. Valeu a pena!!!

Este blog, que começou através do Luciano Rodrigues e que a dada altura se alargou ao Luis Vieira e mim (três belenenses com menos de 30 anos, com pouca experiência mas muita vontade), é já um espaço que pertence à grande família azul. Está aberto a todos, sem excepção. É precisamente por isso que, ao longo destes meses, temos publicado todos os textos que nos são enviados, posições oficiais do clube, comunicados de claques, etc.

Acreditamos com toda a sinceridade que servimos o clube, motivados pela paixão que sentimos por ele. E por isso, as muitas horas em frente ao computador a escrever textos, publicar crónicas de jogos, a escrever notícias, a partilhar fotos, a construir tabelas, a melhorar o aspecto do blog (ainda se lembram do layout antigo?)... não foram perda de tempo. Foram horas dedicadas ao clube!

O rumo do Blog é o rumo que todos nós, Belenenses que queremos bem ao clube, decidirmos para ele. E é por isso que a sua existência continua a fazer tanto sentido!

Na temporada 2004/2005, e em todas as frentes desportivas do clube, o Blog do Belenenses continuará a cumprir a missão de elevar mais alto a bandeira azul do Belenenses. A criticar quando necessário, a louvar quando se justificar... Mas sempre com a consciência de que a sua razão de existir é o Belenenses.

Viva o Belenenses!

Palavras que foram ditas 5: Pepe, novamente



Pepe, novamente
(para o amigo Nuno Gomes e para o seu pai)

Do mesmo artigo de Homero Serpa, continuamos a reproduzir magníficos excertos:

“Pepe estreou-se na primeira categoria do Belenenses em 28 de Fevereiro de 1926 (…) nas Amoreiras, contra o Benfica. Pepe fez o golo da vitória no derradeiro minuto, na marcação de uma grande penalidade. Augusto Silva, capitão da equipa, confiou no elemento mais jovem do grupo desgastado pela recuperação que operou no último quarto de hora da partida, virando o resultado de 1-4 para 4-4. E Pepe marcou o golo do triunfo, iniciando assim uma extraordinária carreira, terminada abruptamente em 24 de Outubro de 1931.

Apenas durante cinco anos, foi o ídolo dos belenenses e o temido mas respeitado adversário dos outros clubes. Foi internacional, ganhou o Campeonato de Lisboa em 1926, 29 e 30. Foi campeão de Portugal em 1929. Participou em 140 jogos. Assistiu ao crescimento do seu clube. Viu-o passar do Campo do Pau do Fio para as Salésias, facto importante que aconteceu em 29 de Janeiro de 1928. Acompanhou-o das acanhadas instalações da Rua Vieira Portuense para uma sede condigna na Rua da Junqueira. Ajudou a projectar um simples clube de bairro, que tivera um princípio agitado e, também, contrariado.

Na época de 31/32, o Belenenses voltou a conquistar o título de campeão de Lisboa. A fotografia comemorativa do feito mostra os jogadores com o sinal de luto nos braços. Neste mesmo ano, foi inaugurado nas Salésias, durante as comemorações do aniversário do Clube, o monumento a Pepe, transferido para o Restelo quando o Belenenses foi obrigado a abandonar as Salésias, facto que encerra um ciclo brilhante da vida da colectividade belenenses, fundada e sublimada por homens com a estatura de José Manuel Soares, um dos rapazes da praia”.

Acrescentamos somente duas notas. Quando Augusto Silva disse a Pepe para marcar o tal “penalty”, este, cheio de humildade e respeito pelo grande capitão, respondeu, incrédulo: “Eu, Senhor Augusto?!”. O Campo do Pau do Fio foi o primeiro espaço de jogos e treinos do Belenenses, ficando situado no espaço em frente da Rua Vieira Portuense.

domingo, agosto 08, 2004

Pretérito Mais Que Perfeito... - Dia 39



1. O nosso tenista Alfredo Vaz Pinto foi 7 vezes campeão nacional de ténis (1963,1964 e consecutivamente de 1968 a 72). No sector feminino, também Leonor Peralta foi campeã nacional.

2. As nossas atletas Angélica Manaca e Maria José Sobral foram campeãs nacionais de 100 e 200 metros em 1970 e 1972, respectivamente.

3. O Belenenses foi o clube com mais jogadores representados na Selecção Nacional de Futebol que participou nos Jogos Olímpicos de 1928.

sábado, agosto 07, 2004

Pré-época: Balanço

Com a vitória de hoje sobre o Vilafranquense, o Belenenses passa a contar com seis triunfos em seis jogos.

Foram marcados 22 golos e apenas sofridos 3. Esta é a lista dos marcadores azuis:
- Com 4 golos: Rodolfo Lima;
- Com 3 golos: Eliseu, Brasilia, José Pedro e Antchouet;
- Com 2 golos: Amaral e Marco Paulo;
- Com 1 golo: Tuck e J. Petrolina.

Dá uma média de 3,67 golos marcados/jogo e 0,5 sofridos.

Mas tambem temos der ter em conta os adversários. Exceptuando a Académica, todos os outros pertencem a escalões inferiores. Vejamos:
- III Divisão: Elvas - 4 golos marcados e 0 sofridos;
- II Divisão B: Oriental e Vilafranquense - 10 marcados e 1 sofridos (média 5/0,5);
- Liga de Honra: Olhanense e Alverca - 7 marcados e 2 sofridos (média 3,5/1);
- Superliga: Académica - 1 marcado e nenhum sofrido.

Os próximos adversários serão:
- Celta de Vigo na apresentação aos sócios (2ª Divisão Espanhola)
- Nacional da Madeira (Superliga)
- U. Tomar (Distritais ?)
- Odivelas (II B)

É verdade!!! Lembram-se do Belenenses ter cancelado o Torneio de Setúbal por causa de um jogo com um adversário de gabarito internacional? Esse torneio decorre nos dias 7 e 8 de Agosto.

Pretérito Mais Que Perfeito... – Dia 38



1. Ao longo da sua história o Belenenses derrotou várias equipas estrangeiras de renome. Já referimos um ou outro exemplo mas deixamos agora uma lista mais completa. Assim, em jogos disputados em Portugal, registam-se as seguintes vitórias: Sevilha, 2-0 (1921); Real Madrid, 1-0 (1945); Desportivo da Corunha, 4-1 (1950); Vasco da Gama, 2-1 (1955); Stade de Reims, 2-0 (1956); Newcastle, 2-1 (1957); Saint-Etienne, 3-1 (1957); Dínamo de Zagreb, 2-0 (1957); Valência, 2-1 (1958); Selecção do México, 3-0 (1958); Spartak Trnava, 2-1 (1975); MTK, 2-0 (1976); C.S.K.A, 3-1 (1983); Vasco da Gama, 2-1 (1984); Barcelona, 1-0 (1987); Bayer Leverkusen, 1-0 (1988).

2. Em jogos disputados fora de Portugal, registam-se as seguintes vitórias significativas: Real Madrid, 3-0 (1929); Borússia de Dortmund, 2-1 (1950); Panatinaikos, 5-1 (1962); Dinamo de Zagreb, 2-0 (1963); Cruzeiro de Belo Horizonte, 2-1 (1966); Olympique de Lyon, 2-0 (1973); Honved, 4-2 (1975); Málaga, 2-1 (1984); Vasco da Gama, 1-0 (1988); Bayer Leverkusen, 1-0 (1988).

3. A nossa atleta Francelina Moita foi campeã nacional de Dardo em 1944, 1947, 1948, 1952 e 1956.

Equipamentos 2004-05

Foram apresentados nesta sexta-feira no Cascaishopping os novos equipamentos para a época de 2004-05.
As primeiras impressões são... bem, vejam por vocês mesmo esta fotografia cedida pelo "salta".

sexta-feira, agosto 06, 2004

Um Sinal de Esperança

Artigo da autoria de Eduardo Torres

Há dias, num dos blogues, alguém perguntava porque é que o Sporting esteve tantos anos (dezoito) sem ganhar nada mas não perdeu espaço e prestígio na Comunicação Social? Não me lembro quem é que fez a pergunta mas, o certo é que a considero bastante interessante. E poderia até acrescentar: e porque é que o F.C.Porto esteve duas décadas apagado, e depois chegou onde tem chegado?

O caso do F.C.Porto tem uma especificidade, que de algum modo lhe facilitou muita a vida, a partir do momento em que a soube explorar: é o maior clube do Porto. E, a partir do momento em que alargou a dinâmica desse conceito para o de maior clube do Norte, tem um espaço de captação de adeptos, com tudo o que isso implica, que é justamente o que o Benfica e o Sporting nos tiram.

A partir do momento em que encontrou dirigentes competentes, e que encontrou uma estratégia de empolgamento (às vezes excessivo) dos seus, afrontado Benfica e Sporting, em lugar da aceitação tácita da inferioridade, como acontecera em alguns dos anos anteriores, despertou sinergias extraordinárias. Consegue manter sempre o seu orgulho vivo e o(s) seu(s) dirigente(s) nunca deixa passar em claro qualquer beliscão, leve que seja (ou até meramente suposto), sem defender intransigente e apaixonadamente o seu clube. Noutras questões, não entro. Nem nunca explicariam tudo. Se me perguntarem se “o” gostaria de ter como amigo, respondo claramente que não. Mas só isso…

E o Sporting? Porque não se ressentiu ele, nomeadamente em termos de projecção na Comunicação Social, como aconteceu com o Belenenses? As razões são várias, e não temos a insensata pretensão de as conhecer todas. No entanto, aqui ficam algumas:

* O decaimento do Belenenses começou no início dos anos 60. O Sporting teve a sua grande crise nos anos 80 e 90. Essa diferença, permitiu que o Sporting pudesse passar mais pujante os anos em que se iniciaram e popularizaram as competições europeias, em que a televisão passou a levar e a repetir imagens, em cada vez maior quantidade, popularizando acrescidamente os clubes que disso beneficiaram. Assim, aquele clube ganhou uma implantação e solidez que lhe permitiu resistir com mais facilidade às tempestades que vieram. Pelo contrário, o Belenenses (a viver o “drama” do Estádio) não conseguiu dar o salto para marcar presença distinta em termos europeus; e a expansão da Comunicação Social, nomeadamente da televisão, tem vindo no sentido inverso ao da capacidade de afirmação do clube. Assim, cada ano que passa, mais espaço perdemos.

* O Sporting sempre se manteve numa postura orgulhosa e altiva – às vezes arrogante; nós, em parte por maior humanidade, em parte por perda de referências, fomos aceitando um estatuto subalternizado, até ao ponto em que é mal visto quem se revolta contra essa atitude, hoje já muito enraizada no subconsciente. Tão enraizada, que já nem os próprios se dão conta de que existe e que a estão a alimentar.

* Os adeptos do Sporting, como os de outros clubes, nunca se coibiram de fazer a propaganda explícita mas, sobretudo, a implícita (isto é, a que se oculta na aparência de neutralidade, e que é a mais eficaz de todas; aliás, como outros agentes desportivos…), dos seus clubes; os do Belenenses, que tiveram ou têm lugares de destaque, nomeadamente na Comunicação Social, pois é tal que principalmente me refiro, são muito mais contidos nisso. Sempre foram. Em parte, por um pudor que só lhes fica bem. Noutra parte, em especial nos dias que correm… não percebo porquê!

* O Belenenses, durante muitos anos, tinha muito pouca gente de “classe média”. Tinha uma aristocracia (verdadeira, isto é, de mérito, ou de simples fachada) e adeptos de classes populares, gente humilde… Ora, desde há décadas que é a classe média – mais culta e diligente – que empurra as coisas, exerce pressão, cria ideias predominantes.

Não vejo o futuro do clube nada facilitado. Os horizontes não estão nada prometedores, e haverá barreiras muito difíceis de superar, por mais competentes que possam ser os dirigentes. Só quem estiver conformado pode olhar para o futuro sem ver que há imenso por fazer…

Repito aqui o que escrevi há tempos atrás: “Em breve virão campeonatos europeus. Com várias divisões e, depois, com algo de semelhante aos nossos actuais distritais, que serão os campeonatos só nacionais. Há 40 anos atrás, aspiraríamos à 1ª Divisão europeia; há 15 anos atrás, à 2ª Divisão. Agora, corremos o risco dos “distritais” (i.e., nacionais). Temos uma década, ou talvez menos, para dar o salto...ou não. Se o não dermos, corremos, sim, o risco da atleticização. Pode parecer uma loucura, um pessimismo detestável, mas olhem que há mais quem veja este risco. E com mais conhecimento de causa! Mas não sejamos derrotistas e pensemos em soluções!”.

Como é óbvio (?), essas soluções não são, não podem ser as de carácter imediatista.

No entanto, há pelo menos um ponto que nos abre uma porta de esperança. No Belenenses, todos são bem vindos, desde o mais poderoso ao mais humilde. Pessoalmente, sinto-me melhor no meio de pessoas genuínas, ainda que às vezes de expressão mais rude, do que no meio do verniz de certas pseudo élites. Mas penso que é importante, e pode trazer uma nova capacidade, o facto de muitos dos filhos daquela gente humilde das primeiras décadas do Belenenses terem entretanto chegado a uma, digamos, classe média, em termos de cultura, de conhecimento do mundo, de know-how, de capacidade de se mexerem. E os blogs belenenses, que se distinguem a léguas, em termos de qualidade, dos de outros clubes (e digo-o sem receio de ser parcial) são um exemplo e sinal iniludível disso mesmo. Um sinal de esperança!

quinta-feira, agosto 05, 2004

Palavras que foram ditas 4: Pepe


Não vamos seguir uma ordem cronológica nesta série de artigos, uma vez que tal se tornaria desinteressante para alguns, mas, de qualquer forma, falaremos hoje, novamente, de uma figura maior dos primeiros anos do Belenenses: José Manuel Soares Louro “PEPE”. E haveremos de falar outros dias, porque ele, como outros figuras e situações do clube, têm demasiadas coisas a serem ditas para se incluir tudo num artigo.

Pepe foi um dos primeiros grandes ídolos do futebol português, talvez mesmo o primeiro de todos. Impôs-se muito jovem no Belenenses e na Selecção Nacional. Nesta, fica o registo da sua magnífica participação nos jogos olímpicos de 1928 (felizmente, guardamos a imagem do seu cartão de identidade como participante nesses Jogos, publicada numa revista da “Bola” há 16 anos atrás) e numa das vitórias contra a França, com 2 golos da sua autoria e uma exibição magistral, que levaram os portuenses a transportá-lo em ombros.

Ribeiro Reis, benfiquista e um dos fundadores do jornal “A Bola”, era insuspeito no que escreveu: “Pepe era o nosso avançado mais eficaz e produtivo. Concebia e executava as suas jogadas com uma rapidez fantástica. Artífice máximo das vitórias do seu clube e de muitos triunfos nacionais pelo seu remate pronto e poderoso”.

Nos tempos em que “A Bola” nos tratava ainda com alguma consideração, Homero Serpa, um grande Belenenses, escreveu um notável artigo sobre Pepe (“A Bola Magazine”, nº 12, Maio de 1988), de que, com a devida vénia e respeito, transcreveremos vários excertos, em diferentes artigos. Hoje, deixamos aqui este:

“No dia 24 de Outubro de 1931, no Hospital da Marinha, para onde tinha sido transportado na véspera em estado grave, faleceu um moço de 23 anos, operário das oficinas da Aviação Naval, jogador internacional do Clube de Futebol ‘Os Belenenses’, figura inconfundível de homem e de desportista – chamava-se José Manuel Soares, o ‘Pepe’.

Pepe deixou indeléveis recordações nos companheiros, nos adversários e em todos os adeptos do futebol. Deixou também a mística do seu nome e da sua acção em campo ligados a um outro misticismo, que foi o célebre ‘quarto de hora à Belenenses’, que a história do grande jogo regista em letras azuis. Talvez porque Pepe foi figura central de um desses quartos de hora, quando o Belenenses, em 28 de Fevereiro de 1926, no Campo das Amoreiras, culminou a recuperação de 1-4 contra o Benfica, marcando, no minuto derradeiro, o golo da vitória do seu clube. Houve festa na ‘aldeia’ de Belém, tão grande foi essa tarde, como enorme foi a dor da população belenense quando pouco mais de cinco anos passados sobre o feito de Pepe, o acompanhou ao cemitério da Ajuda.

(…) Pepe sobrevive ao tempo que caminha e destrói a memória dos homens. Pepe resiste porque ele simboliza o velho Belenenses erguido por gente da praia, por homens modestos, que viviam no bairro operário e levaram para o seu clube a têmpera de quem sabe quanto custa a vida e quanto esforço é preciso para a enfrentar e vencer. Por isso, a camisola azul dos Belenenses não está ligada apenas ao mar em estreita ligação com a Cruz de Cristo, que de Belém saiu a bordo das caravelas, mas ao fato de ganga, também azul, e que Pepe vestiu mais vezes do que o equipamento do seu clube”.


"Inauguração do primeiro relvado de Portugal, o do Estádio José Manuel Soares Pepe (Salésias), em 25 de Abril de 1937. O Belenenses venceu o Benfica"

quarta-feira, agosto 04, 2004

A Década de 80 (cont.) - Parte IV: E Voltam as Desilusões... - Secção III: Sombras muito negras

Como vimos no artigo anterior, nas eleições realizadas em 12 Maio de 1990, as primeiras a sério na história do clube, ou seja, com verdadeira disputa, acabaram por chegar ao fim duas listas:

- A Lista B, liderada pelo Major Baptista da Silva;
- A Lista D, liderada pela dupla Ferreira de Matos / Joaquim Cabrita, que acabou por vencer.

Na altura, eu tinha uma excepcional consideração pelo Major Baptista da Silva, que já fora Presidente entre 1972 e 1974, em anos felizes para o clube, e era meu entendimento que a sua lista era bem mais consistente, o mesmo sucedendo com o programa, embora me parecesse (como é habitual, infelizmente) algo incompleto e com bastantes lugares-comum. Continuo a pensar que Baptista da Silva prestou muitos serviços relevantes ao clube, e de alguns deles falaremos adiante; se já não o vejo rodeado pela mesma aura, isso não se deve, sublinhe-se, a qualquer coisa que ponha em causa, minimamente que seja, a sua integridade.

A sua candidatura mereceu o apoio expresso de belenenses tão ilustres como os antigos atletas do clube Vasco (uma das Torres de Belém), José Pedro (outros campeões de 46), Gatinho (uma glória do futebol azul dos anos 30 e 40), Carlos Serafim, Godinho, o Prof. Fonseca e Costa, o Dr. António Marques (ex-Presidente da FPF), o Dr. Francisco Mega (filho de um dos grandes presidentes da história do Belenenses, com o mesmo nome, que exerceu o cargo mais anos do que qualquer outro: 1935-1938; 1939 a 1941 e 1950 a 1954), Dr. Carvalho Cardoso (Presidente do clube em 1965), Salustiano Lopes, o Coronel Luís Soares da Cunha (filho de Francisco Soares da Cunha, a grande alma da construção do Estádio do Restelo), Carlos do Carmo, Paço Bandeira, Francisco Nicholson…. Sem contar com aqueles que igualmente integravam a lista, como Manuel Bulhosa, o actual Presidente Sequeira Nunes, Mendes Pinto, Machado Rodrigues…

O grande Vasco, aliás, foi muito claro e expressivo: “ O clube vai ganhar e melhorar muito se Baptista da Silva for eleito. Desconheço Ferreira de Matos e não sei do que é capaz e da sua capacidade de trabalho. Pelo que vi na televisão, deduz-se com facilidade e nitidamente da superioridade do Baptista Silva”.

E quanto à lista que veio a ganhar? A sua estratégia baseou-se fundamentalmente no seguinte:

* Uma campanha popularucha, folclórica, tipo festa de bairro ou de aldeia;
* Uma aposta no porreirismo-contentinho-da-Silva, do género: é preciso é ser optimista, já ganhámos a próxima Taça, isto vai lá com uns sorrisos, umas cantigas, umas graçolas e umas caretas cómicas (como a da 1ª página do respectivo Jornal de Candidatura), cuidado com o bota abaixo, o discurso crítico é saudosista, passadista e quer prejudicar o clue, tenhamos pensamento positivo…;
* Uma manobra eleitoralista, que foi adiantar dinheiro para o Chiquinho não sair para o Estrela da Amadora (o que eu me permito duvidar que pudesse acontecer, mas enfim…), para o que o bom e realmente generoso do Major Ferreira de Matos dispôs de 4.000 contos, salvo erro. De resto, o Major Ferreira de Matos, pessoa de bem, foi completamente usado só para pôr dinheiro; e quando, depois das eleições, se percebeu que não dava mais (dinheiro), foi marginalizado e “interdito” pelos colegas de Direcção;
* A utilização de palavras mágicas da moda, que são papagueadas e seguidas acefalamente. Uma história que se repete sem cessar!... Na altura, a expressão mágica era o clube-EMPRESA. Interessava usar cada vez menos a palavra clube, substituindo-a por empresa: “O Chiquinho fica, porque eu na minha empresa quer os melhores”. Lema da lista e da Campanha: Desporto-Empresa-Espectáculo;
* A circulação oficiosa de que, numa base de restabelecimento de relações com o F.C.Porto, este nos emprestaria grandes jogadores e que o Benfica faria o mesmo, além de vir de lá o Chalana (que só conseguia jogar partes de meia dúzia de jogos no ano…) e, talvez, o Diamantino (também ele no ocaso da carreira). E claro, isto deu volta à cabeça a muitos (enquanto a outros, nomeadamente a mim, deu volta ao estômago, ao fígado, e a todas as entranhas possíveis);
* Um paradoxal, mas já então popular, discurso contra as promessas. Ou seja, a promessa de não fazer promessas…

E aqui permito-me intercalar algumas considerações que considero das mais importantes de toda esta série de artigos. Não nos devemos confundir com palavras. Quando Hitler e Mussolini assinaram o tristemente célebre Pacto do Aço, o seu artigo 1º dizia que era para “garantir a paz e a segurança na Europa”!!! E a história está cheia de exemplos semelhantes. Para mim, depois de muitos anos ter pensado no assunto, é-me completamente indiferente se os candidatos fazem promessas ou não. Em ambos os casos, podem ser estratégias. E, no fundo, de uma forma ou outra, há sempre promessas, mais espalhafatosas ou não. Agora o que me interessa, o que acho que nos deve interessar, é a consistência ou não do programa, das soluções propostas para resolver problemas, para andar para a frente e para cumprir promessas. Se me disserem: vamos daqui ao Porto em uma hora, eu não digo que sim ou que não. Quero saber como. Se me disserem, “vamos de bicicleta, que eu sou um ás do pedal”, penso: “coitado, este tipo não dá uma para caixa, é melhor esquecer”. Se me disserem “vamos de carro, sempre a acelerar, e conseguimos”, eu penso: “Eh lá, isto é perigoso! Não só não se chega lá em uma hora, como é bem capaz de dar um grande estampanço, com mortos e feridos”. Se me disserem “vamos de avião”, bem, então a coisa já parece mais séria. Mas ainda falta saber se os tais têm esse avião ou como é que o vão arranjar…

Deste modo, o importante não é se se fazem promessas ou não; o importante é ver se há (ou não) um programa que demonstre inteligência, QUALIDADE, capacidade, ambição, rigor, seriedade, acções articuladas, uma visão global e de futuro mas que tenha bem hierarquizados os sucessivos passos a dar, sem saltos no escuro. E, claro, que mostre que se conhece e se respeita a identidade do clube.

Para que não fique dúvidas de que a lista vencedora, que num ápice deixou o clube na 2ª divisão e com dívidas por todo o lado, depois de episódios deploráveis, e de anúncios patéticos e espectaculares, fez na sua campanha a CONDENAÇÃO DAS PROMESSAS, transcrevo da pág. 3 do Jornal de Candidatura, a qual tinha a sua sede na Rua Francisco José Vitorino, nº 8 R/C, em Linda-a-Velha o texto que virá a seguir, entre aspas. Guardei. Foi dito e está registado. Não estamos a falar à toa!

“PROMESSAS?

Dizem os mais avisados que de promessas está o mundo cheio! Prometer o Céu e a Terra, mundos e fundos, já não surpreende ninguém. Cumprir as promessas, levar as suas ideias até à sua concretização é que constitui o maior problema. Aquelas dizem respeito a sonhos realizáveis, possivelmente atingidos com algum esforço, porque, se o não exigir, também não são promessas que se façam nos nossos dias; as outras, as ‘tais’, essas, são do mundo do sonho fantástico, moram paredes meias com o inatingível, são megalómanas, feitas para adormecer meninos, encantar visionários, enganar consciências simples.

A megalomania é uma arma que alguns usam apontada aos incautos, indefesos, aqueles que não possuem o acesso à informação das possibilidades do clube e que não podem avaliar dificuldades.

Em época de campanha eleitoral passou a ser hábito, em Portugal, os clubes fazerem o anúncio de medidas eleitoralistas. Vale sempre mais, no jogo da caça ao voto, anunciar a contratação duma ‘estrela’ de futebol do que falar em medidas de fundo da valorização do clube, da sua organização ou do seu património. O que importa é o nome do ponta de lança que vai marcar vinte golos por época, do médio que vai resolver o problema do nosso meio campo, ou do treinador que, com novas tácticas e algumas ‘quimbandices’, nos vai oferecer vitórias todas as semanas.

Começa em época eleitoral, a busca incessante de estrelas a contratar. Movimentam-se os empresários que oferecem a sua mercadoria – algumas vezes gato por lebre – analisam-se vídeos, anunciam-se intenções e, para não falhar muito, enfiam-se alguns barretes. Mas a isto já o adepto da bola está habituado. Houve que estabelecer outras estratégias.

A eleição vai concorrida, os candidatos surgem a granel e os votos são cada vez mais apetecidos.

Não espanta, não nos espanta, não surpreende, que já se vá dizendo à boca cheia que o futuro do nosso clube passa pela venda dos terrenos do nosso Estádio para se fazer outro. Mais imponente, mais bonito (?), de maior capacidade, a uns quilómetros dali, lá para as zonas de Monsanto! É fartar vilanagem. Mas que eles não esqueçam que quando a promessa é grande, o Santo desconfia…e de promessas dessas estamos todos conversado”.

O mais caricato desta verborreia (na qual, no entanto, concordo totalmente que o importante não e se se contrata o jogador X ou Y), é que só houve uma pessoa que, na altura, falou vagamente da hipótese de um novo estádio, e essa pessoa era… da Lista A, que se fundiu com a candidatura de Ferreira Matos / Joaquim Cabrita (Lista C), dando origem à Lista D! Consideramos que não é preciso dizer mais nada…

Outro ponto curioso, e a não esquecer, é que foi também nesta lista que surgiu, como um dos Vice-Presidente, José António Matias. É que há erros que se desdobram em cascatas… Nem tudo no José António Matias foi mau, atenção. Ele tentou mexer um pouco na questão (então) muito estagnada do património. Não fez muito – nada que se compare, de muito longe que seja, com o feito pelo Engº Cabral Ferreira e actual Direcção! – mas sempre fez alguma coisa. E, claro, num clube em que se criou uma “cultura” de que o mau é normal, o medíocre é bom, e o assim-assim é fantástico e inatacável, o senhor foi-se projectando para chegar onde chegou e fazer o que fez… numa situação em que foi simultaneamente culpado e vítima! Mas enfim, não vamos entrar pela década de 90 adentro, visto que J.A.Matias só chega à Presidência em 94. Só quero dizer que não ponho em causa que na lista vencedora das eleições de Maio de 90 houvesse pessoas bem intencionadas e convictas de que iam fazer bem ao clube. Não discuto isso, que são questões subjectivas. Coisa diferente é os factos e resultados objectivos.

A única coisa boa que vi no programa da lista do Major Ferreira Matos / Joaquim Cabrita foi a ideia da criação de um Gabinete de Estudos e Projectos, algo que eu, pessoalmente, há muito defendia e defendo. Mas mesmo isso, considero quase irrelevante, pois eu penso o seguinte: Se alguém quer candidatar-se à Direcção de um clube com o peso que tem e DEVE ter o Belenenses, precisa primeiro, durante bastante tempo, ter reflectido maduramente, ter um programa muito sólido e bem elaborado, com projectos criativos relativamente às diversas áreas do clube e escalonados no tempo. E o tal Gabinete irá propondo outros possíveis projectos, nomeadamente face às novas realidades, problemas, desafios e oportunidades que sempre vão surgindo. Ora, o que se fez naquela candidatura foi algo de bem diferente: não há nenhum projecto consistente e com nível mas crie-se um GEP, que talvez acabe por escorrer da cabeça de alguém uma ideia válida…

Face a tudo isto, sentia-se, no Restelo, que a balança ia pender para a lista D (aliás com a já referida e inqualificável ajuda do jornal oficial do clube). Mas ainda havia uma hipótese de inverter a situação: o debate televisivo entre os dois candidatos que chegaram ao fim, os Majores Baptista da Silva e Ferreira Matos.

Infelizmente, o debate foi um espectáculo triste e confrangedor. O Major Ferreira Matos durante todo o tempo repetiu incessantemente 3 frases: “Não vamos começar a dizer mal…”, “é preciso é confiança e optimismo”, “Numa reunião em que o senhor esteve presente com mais 20 sócios, ficou decidido que eu iria ser o Presidente do Belenenses, por isso tem que ser!”.

E face a isto, Baptista da Silva quase não consegui acabar uma frase para explanar uma ideia. Exemplo: visto que tínhamos passado às meias-finais da Taça, Baptista da Silva começou uma frase dizendo “Se o Belenenses ganhar a Taça de Portugal…” e ia a expor a ideia. Mas não conseguiu, pois logo F.Matos interrompeu: “Mas não tenha dúvida de que ganhamos. Nós estamos a 180 minutos de ganhar!…”. B. da Silva tentava novamente explicar e logo tornava F.Matos “mas não diga ‘se’. Temos que ser optimistas. A vitória está certa. Eu tenho pensamento positivo e assim ganhamos!” (Ironicamente, estávamos a ganhar a meia-final, até ele aterrar no Estádio do Restelo, como já disse em outros artigos). Outro exemplo: Baptista da Silva dizia “Não podem acontecer situações como…” e logo F.Matos interrompia ”mas não vamos começar a dizer mal…”. E foi todo o tempo assim!

Aproveito para esclarecer o seguinte: no meu entendimento, o optimismo e a confiança são coisas muito saudáveis mas depois e não antes de se ter feito tudo o possível, não regateando qualquer esforço, para que as coisas corram bem. Caso contrário, é um mero chavão, uma atitude comodista ou uma panaceia usada por quem não sabe fazer melhor.

Em consequência do que temos descrito, os resultados foram estes:

Lista B – 5.491 votos 43, 2%
Lista D – 7142 votos 56,2%
Nulos - 49 votos 0, 4%
Brancos – 22 votos 0,2%

Note-se que só votaram cerca de 4.000 sócios, pelo que aquelas quantidades resultam dos diferentes números de votos a que cada sócio tem direito, atendendo à respectiva antiguidade.

E assim, a lista que se apresentou com o lema Desporto – Empresa – Espectáculo ganhou as eleições, por vontade maioritária dos sócios votantes. E bem rapidamente se veria a execução do lema. Desporto? No futebol, queda na 2ª Divisão! Empresa? O clube ficou numa situação financeira calamitosa! Espectáculo? Sim, grande mas triste espectáculo o da série inacreditável de asneiras e de episódios rocambolescos que se sucederam uns aos outros em 7 meses surrealistas que deixaram o clube exangue… e lhe tiraram quase tudo o que restava de esperança de o devolver à grandeza dos seus tempos áureos.
Será com muita tristeza que, no próximo artigo descreveremos o que foi esse período e as tristes consequências da escolha eleitoral.


terça-feira, agosto 03, 2004

Palavras que foram ditas 3: Artur José Pereira



Artur José Pereira (1890-1953) foi um dos fundadores do clube, e o principal entusiasta da sua criação. Homem notável, gentilíssimo e apaixonado, um dos mais extraordinários futebolistas e treinadores portugueses, acabou por concretizar o seu sonho de fundar um clube genuinamente belenense (o Sport Lisboa, que nascera em Belém, fundira-se entretanto com o Benfica).

Falaremos mais sobre ele em outros números. É bem merecido!... Por hoje, recordamos apenas o teor de uma proposta de Acácio Rosa, em Assembleia Geral do clube realizada em 1991:

“ARTUR JOSÉ PEREIRA é a figura que encarna a mística do clube de várias décadas. Os Beléns – a juventude de hoje -, a família dos ‘velhos’ e dos novos que se orgulham de pertencer, de lutar e de sofrer pelo BELENENSES, têm a obrigação moral de prestar culto de amor e de gratidão a este HOMEM.

Que à entrada do nosso Estádio, se coloque a figura, o busto, que diga aos beléns de hoje e do amanhã: foi este o belenense que deu a todos nós o ideal que apaixonadamente vive em nossos corações!”.

Falta cumprir este dever moral!

Pretérito Mais Que Perfeito... – Dia 37



1. Voltando ainda ao campeonato de Lisboa: além das 6 vitórias nas 1ªs categorias, o Belenenses conquistou 13 Campeonatos em 2ªs categorias, mais tarde chamadas “reservas” (note-se: tempos houve em que estes jogos dos campeonatos de 2ªs categorias ou reservas tinham grandes assistências e eram relatados pelas rádios) e 4 em 3ªs categorias.

2. No distante ano de 1937, já o nosso Estádio das Salésias, além de ser o único relvado, com bancada coberta e campo de treinos, tinha a lotação, extraordinária para a época, de 25.000 pessoas.

3. O Belenenses é o 2º clube português com mais jogadores internacionais de andebol.

segunda-feira, agosto 02, 2004

A qualidade dos nossos adversários

Esta pré-época tem corrido bem para os azuis do Restelo. Quatro jogos, quatro vitórias e quatro goleadas.

Só que os adversários do Belenenses têm pertencido todos a escalões inferiores: Olhanense e Alverca da Liga de Honra, Oriental da II Divisão B e O Elvas da III Divisão.

E os nossos próximos adversários? Ainda só temos confirmados a Académica da Superliga, o Vilafranquense da II Divisão B e o Celta de Vigo, agora na II Divisão Espanhola, mas também se fala do Bordéus (I Liga Francesa), do U. Tomar (I Distrital?) e Odivelas (II Divisão B).

Resumindo, uma equipa das distritais, outra da III Divisão, três da II Divisão B, duas da Liga de Honra e uma da Superliga. Das equipas estrangeiras uma actua na I e outra na II Divisão. Serão estes os adversários adequados para o Belenenses?

Eu acredito que a equipa técnica sabe o que está a fazer, e portanto têm a minha confiança, mas não vamos estar demasiado optimistas com estes resultados.